quarta-feira, 6 de junho de 2012

Estamos julgando?


Quando descobrimos o cabelo natural, é possível que fiquemos, de certa forma, obcecadas pelo assunto. Depois de um tempo já sabemos de cor e salteado todos os ingredientes proibidos e os permitidos, ganhamos uma noção de todos os danos que nosso cabelo sofre a cada respirada que alguém dá do outro lado do mundo e das formas de evitá-los, do perigo dos alisantes, que além de estragarem o cabelo podem causar doenças terríveis e deixar nossas membranas cerebrais pintadas de azul.

E com toda essa informação nas mãos, passa a ser nosso dever alertar nossas irmãs de cabelo crespo do perigo que correm ao continuar com o uso de certos produtos. É verdade que toda essa nossa pregação, por vezes, consegue converter algumas pessoas. A cada vez que fazemos isso, sentimos que a nossa boa ação do dia foi realizada.

É claro que existem diferentes formas de ser uma naturalista, isto é, de usar o cabelo em sua forma natural. Há desde as mais ativistas, que evitam produtos testados em animais, às naturebas, que não usam cosméticos com substâncias sintéticas até aquelas que não ligam pra nada disso e são, na verdade, viciadas em produtos de todos os tipos, cores e fragrâncias. Há também aquelas crespas e encarapinhadas que são “low-profile”: aceitam uma fugida da rotina aqui, uma escova acolá, um megahair ou aplique em uma ocasião especial, ou ainda, bem de vez em quando dão um “susto” na raiz com alguma química.

Pois daí vem a minha pergunta: o quão natural um cabelo nos faz ser uma naturalista? Basta não usar "química"? Ou será que pra ser naturalista há algum requisito especial? Existem meninas que usam tranças com aplique. Outras usam tintura nos fios. Outras não fazem nada disso, mas lançam mão de bobs, twists ou bigudinhos para alterar o aspecto do cabelo e deixá-lo com aparência de cachos mais largos e definidos. Elas, de alguma forma, modificam o cabelo - seja sua cor natural, sua textura natural ou sua aparência natural. Por vezes, olhamos para um cabelo, ainda que crespo, mas modificado e duvidamos que ele seja verdadeiro. “Ela fez alguma química” ou “isso não é o cabelo dela de verdade” são as primeiras frases que pensamos ao ver um cabelo crespo ou encarapinhado “perfeito demais pra ser verdade”, ou, em outras palavras, um que fuja do padrão que temos de cabelo natural.

Será que ao olharmos para uma encarapinhada, como nós, e automaticamente avaliar seus cabelos e nos indagar sobre seus procedimentos de forma depreciativa, só porque ela não segue a mesma filosofia que seguimos não é fazer um juízo de valor sobre essa pessoa sem antes mesmo conhecer seus argumentos para tal? Será que, ao invés de nos unirmos, não estamos julgando nossas irmãs e, por consequência, nos separando mais ainda umas das outras?

Eu comecei a escrever este blog justamente pela necessidade de espalhar o que aprendi e o que descobri para outras meninas, que, como eu, tinham uma relação difícil com seus cabelos. Confesso que fui, sim, movida pela obsessão naturalista de trazer mais fiéis para o grupo das que não tem medo da chuva. E não, este artigo não é o fim do blog, muito menos uma despedida pra dizer que essa vida de naturalista não leva a nada. Muito pelo contrário! Eu continuo defendendo o cabelo natural com todas as minhas forças, e continuo querendo trazer mais adeptos a esse grupo. Mas, como sempre é bom refletir sobre nossas idéias e práticas, talvez esteja na hora de nós, naturalistas, pensarmos se o caminho da radicalidade, do apontar o dedo a alguém que não é “tão natural” quanto nós vale a pena. Talvez estas atitudes muito fundamentalistas afastem de nós aquelas que poderiam um dia se interessar pelo que temos a dizer.

Ao invés de acusar, acolha. Escute o que o outro ou outra tem a dizer – nós podemos não estar falando línguas tão diferentes assim.

19 comentários:

  1. Ótimas palavras Nica. Graças ao grupo que frequento...(Forum Encaracoladas), aprendi um pouco mais sobre a luta de cada pessoa com seu cabelo. Hoje só que aceito que o meu caia, ou fiquei totalmente feio, e sem vida. O resto da p/ levar ser neuras. Continuo sendo natural...mas sem radicalismo.

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    1. Pois é, acho que o importante de tudo é podermos dividir nossas tristezas e alegrias umas com as outras :)
      Bjos!

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  2. Eu acho que o importante é ser feliz. Seja de cabelo natural, alisado, relaxado, com permanente, com twists, ou seja, do jeito que for, do jeito que a pessoa se sentir bem. Eu estou no período da transição. Há 8 meses que só hidrato, não uso nenhuma química. Acredito que vá ficar feliz om o meu natural. pelo menos vou tentar.bjs

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    1. Ellis, concordo com você!
      Encontramos o mesmo caminho para a felicidade :D
      Bjos

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  3. Pois é Nica,
    acho que cada uma tem sua escolha. Eu evito falar sobre a técnica que uso em meu cabelo para não parecer que estou tentando convencer os outros a se converter ao no-poo. Quando me perguntam o que estou fazendo para o meu cabelo está tão bonito respondo com maior prazer e ensino aquilo que já sei e indico leituras para entenderem melhor.
    Acho que cada um tem que ser feliz do jeito que gosta, alisada, cacheada ou encarapinhada. Procuro não julgar as escolha das outras pessoas.

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    1. Rebeca, penso como você :)
      Acho que se a pessoa optar pelo mesmo caminho que eu, será ótimo porque poderemos trocar experiências mais profundas. Mas se não optar, tudo bem também. No fim das contas é COMO se fala e não o que se fala...
      Bjos!

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  4. Nica meu namorado sempre diz que meu cabelo não é natural, apesar de eu estar há 2 anos sem química, segundo a teoria dele a quantidade de cremes e óleos que utilizo no cabelo não deixa meu cabelo natural de jeito nenhum, ele acha que eu deveria falar "cabelo sem alisantes e relaxantes " e "não sem quimica"...rs

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    1. Sabe que há muito muito tempo atrás, em uma comunidade do orkut, um rapaz falou exatamente isso? Que na opinião dele os cremes que a gente usa são só uma desculpa pra deixar nosso cabelo "menos" crespo. Será que era seu namorado??? Hehehehe
      Bjos!

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    2. Talvez seja...kkkkk

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  5. Nica, que postagem maravilhosa!

    Assim como vc, gosto de refletir! Já são quase 2 anos de caminhada com meu cabelo natural, e foi bem agora que comecei a descobrir quem sou e o que eu quero para meu cabelo.

    É bem verdade que existe essa segregação no meio das cacheadas e encarapinhadas. Acho até que essa questão é bem mais complexa, quando a gente pensa que tipo de cacho é mais aceito pela sociedade em geral. Me responda: "Vc já viu algum cacho como o nosso ser capa ou motivo de admiração?" Quando surge um concurso, qual é o tipo de cacho que sempre acaba ganhando? Acho q vc tem a resposta bem aí!

    Agora, vem a discriminação, ainda que sutil, entre as naturalistas, as que não são e as que fazem de tudo um pouco...enfim...

    Sinceramente, eu não me considero naturalista, pq minha idéia de pessoas assim são aquelas que são mais radicais, que não usam produtos sintéticos de jeito nenhum. Elas não usam tinturas e outras químicas nos cabelos e no corpo. Geralmente tem uma alimentação natural tbm.

    Eu me encaixo na categoria que segue uma rotina e que foge dela de acordo com meus desejos! Não gosto de me sentir presa a nada, sem contar a curiosidade que tenho com cosméticos de maneira geral.

    Mas não aceito de forma nenhuma que ninguém exclua ninguém ou que discrimine suas opções! Não mesmo!!! Cada um desenvolve sua própria personalidade enquanto ser humano e ela o acompanha em todas as áreas da vida!

    Vc abordou de forma bastante pertinente esse assunto que considero muito grave e muito "gritante" em nosso meio.

    Prefiro dar as mãos às minhas amigas, sejam alisadas ou não, naturalistas ou não...quero mais é compartilhar e aprender nesse tão vasto mundo!!!

    Beijos, Linda!

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    1. Aninha, que bom que você gostou!!! Sério, de coração (L)
      Eu considero que naturalistas são as que usam o cabelo sem alteração de textura - no nível do alisamento/relaxamento. Progressiva eu nem cogito citar porque pra mim aquilo é suicídio mesmo!

      Porque, no fim das contas, tudo é química - até a água é química, H2O, não é verdade? rs! A JC do Natural Haven que costuma falar isso!

      Acho que no fim das contas ser naturalista é aceitar-se como se é, naturalmente. Tïpo aquela música do Dead Prez que postei há algumas semanas...

      Confesso que essa postagem também foi muito pra mim mesma, porque eu também não vou me fazer de santa e dizer que não julgo, rs... Mas tento me policiar quanto a isso.
      Bjos!!

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  6. Sim Nica, polícia do cabelo não dá né. Já tem repressão p tanta coisa. Acho q isso de ser natural ou não é mais um rótulo q devemos evitar. Assim como sabemos o q faz bem ingerir p saúde do corpo, acho q já sabemos tb o q o é para o cabelo. Bem, assim como a gente não come só coisa boa, como deveria(será q há quem consiga?), há quem por algum motivo não use só o que faz bem à saúde do cabelo. A gente não sai por aí tacando pedra nos gorduchos e gorduchas, ao contrário, a gente tenta apoiar, mas sabe que é difícil resistir às tentações. As tentações cosméticas também são muitas, o melhor é não ceder demais, se for na comida, adoece o corpo, se for no cabelo irá adoecê-lo certamente. Bem, o que fazer? dieta, ginástica, hidratações, nutrições, informação, que pra isso já tem brilhantemente entre outros o seu blog, o da Aninha, o nosso queridinho encaracoladas....bjs mandou bem, como sempre.

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    1. Obrigada, Nanda!
      Valeu pela visita! :)
      Bjos!

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  7. Oi Nica!
    Nossa, acabei de conhecer o seu blog e já adorei, rs
    Tô no início da minha transição..Depois de 5 anos alisando o cabelo, decidi assumir meus cachos, tomara que eu goste do resultado final (e sei que vou gostar)! Tô a 3 meses sem progressiva e só um mês sem fazer escova e prancha nos fios e confesso que me surpreendi com o meu cabelo. Nossa, ele ficou muito melhor do que eu achava que iria ficar. Sério mesmo, to até me achando mais bonita, haha.
    E uma outra coisa que me deixou curiosa: acho que te conheço de algum lugar... Você é psicóloga e cientista social...Juro que vi uma pessoa muito parecida com você, estagiando com o meu professor de sociologia da escola(lembro que me apaixonei pelo cabelo dela e foi uma das razões pra eu decidir assumir o meu natural, rs)... Será que era você? :O
    haha, amei o blog, parabéns.
    :*

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    1. Isabela, cabelo natural é um caminho sem volta: uma vez lá e você irá se apaixonar :)
      Bjos e boa sorte na sua jornada!


      P.S.: Será que era eu?? :O rs

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  8. Nica, muito importante a sua reflexão, ela vale para tudo na vida. quando nos apaixonamos por algo corremos o risco de nos tornarmos fundamentalistas.
    Acho até q que julgar é uma tendência natural do ser humano, vc que tem conhecimento em psicologia pode dizer se estou certa ou errada, mas isso não significa que devemos nos estregar a isso. Cada preconceito que aparece deve ser ser reconhecido, pensado e transformado. Refletir é sempre uma oportunidade de crescer...
    Bjo

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  9. Adorei o texto, realmente tem um pessoas que ficam meio xiitas nessa história. Eu não sou radical, sou no poo mas sem fanatismos, fico na minha e não tento catequisar ninguém, achei meu caminho sozinha, antes fazia relaxamento no cabelo. Quem se interessar por este caminho, vai segui-lo com seus próprios pés. bjus

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