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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Cabelos naturais e expectativas desleais


O crescimento da comunidade dos cabelos crespos naturais na internet fez surgir novas referências estéticas. Através de imagens amplamente compartilhadas entre nós, elegemos nossas gêmeas, nossas divas e nossas paixonites de cabelo. Há até mesmo o termo hair porn (pornografia capilar) para designar aquelas fotos ou vídeos que enchem nossos olhos de beleza ao mostrar imagens de cabelos estonteantes, sejam eles soltos ou presos.

Contudo, há de se perceber que nem sempre esses cabelos são genuinamente naturais. Muitas das imagens que vemos internet afora são de mulheres com perucas ou apliques variados (crochet braids, weaves, sew-ins etc).

Diante de tantas meninas em transição ou que acabaram de passar por ela admirando e almejando os cabelos dessas mulheres, artistas ou anônimas, que lhes servem de exemplo, não há como não perguntar: essas imagens não estariam criando expectativas fora da realidade para quem deseja seguir pelo caminho de volta ao cabelo natural?

O lado bom das imagens é que dão visibilidade a uma estética que, historicamente foi rejeitada pelos meios de comunicação e não se enquadrava no padrão de beleza vigente. A comunidade natural, com seus códigos próprios, criou também seus exemplos de beleza voltada para aquilo que nos é real. Ver os cabelos crespos espetacularmente compridos e afros incrivelmente volumosos das fotos postadas nas redes sociais nos mostra outras possibilidades de beleza além daquela do “cabelo-liso-escorrido-loiro-esvoaçante”.

Por outro lado, como nem sempre é óbvio quais fotos mostram cabelos de fato naturais e quais mostram perucas e apliques, essas imagens podem frustrar a observadora que não consegue relacionar o cabelo que sai de sua cabeça com aquele visto na tela do computador. “Como ela consegue um cabelo tão grande em tão pouco tempo?”, “Como ela tem o cabelo tão cheio e o meu parece tão ralo?”, “Porque o cabelo da foto fica tão definido e ao mesmo tempo tão volumoso e o meu não?” são alguns dos questionamentos que, eventualmente, vemos nos fóruns de discussão.


O fato é que, se nem tudo que reluz é ouro, nem todo cabelo crespo é mesmo natural. E, por conta disso, é importante aguçar nossa percepção para não cair numa “pegadinha” que vá nos desencorajar a continuar em nossa jornada.


* * *



Você acha que as fotos de mulheres com apliques e perucas de cabelo crespo são um incentivo ou um desserviço?

terça-feira, 25 de março de 2014

Cabelo bonito é uma questão de sorte?


Dia desses, navegando no site Black Girl with Long Hair, encontrei uma matéria sobre o meme de internet que fizeram sobre o cabelo da atriz Tracee Ellis Ross. A figura mostra a foto de uma menininha aos prantos, com a frase “Aquele momento em que você percebe que não tem o cabelo da Tracee Ellis Ross”.

O cabelo da Tracee é inegavelmente bonito: ele é visivelmente saudável, não mostra danos e lhe dá a possibilidade de fazer inúmeros penteados e visuais diferentes. Além disso, ele parece ter cachos um pouco mais largos (apesar de a textura encarapinhada ser notada em parte dos fios), o que o coloca no rol dos cabelos “bonitos”, de acordo com o padrão estético do mundo em que vivemos.

Há quem acredite que certos tipos de cabelo precisam de química porque são naturalmente “ruins” e que as pessoas que não usam químicas podem optar por este caminho porque teriam a “sorte” de possuírem um cabelo razoavelmente “bom”. Obviamente, esse pensamento ainda está baseado na ideia que também define o padrão de beleza vigente: majoritariamente continuam sendo “bonitos”, “desejados” e “desejáveis” cabelos com cachos, de preferência mais largos, com textura do fio não áspera. Quanto mais próximo deste ideal, “melhor” seria o cabelo e “mais sorte” teria a pessoa por ter nascido com ele assim.

Há uma ideia errônea de que nossos cabelos devem ser ou estar perfeitos o tempo inteiro, sem nenhum esforço de nossa parte, e é nesse ponto que a fala da Tracee se encaixa:

Alguém disse que sou mestiça. Então meu pai é branco e minha mãe é negra e talvez esse seja o motivo de eu ter esse cabelo tão especial. Isso não é verdade, pessoal. Nós todos temos diferentes texturas, diferentes heranças étnicas, diferentes misturas, diferentes padrões de cacho e, falando por mim, eu passei por uma jornada para descobrir como esse cabelo funciona. Esse cabelo requer muito trabalho. É complicado. E as pessoas não te dizem como fazer. Essa nova onda do cabelo natural vem acontecendo, graças a Deus. Quem dera que alguém tivesse dividido comigo algumas dessas informações quando eu era mais jovem. Eu tive de descobrir sozinha. Alisei o cabelo, tive que deixar crescer de novo. Foi difícil. Meu cabelo não cresceu cortando. Cortei uma franja, isso foi uma besteira. Eu costumava sentar no salão de beleza o dia inteiro aos sábados quando era adolescente. Acordava minha mãe cedo pra quem ela esticasse meu cabelo. Dormia de bobes e ficava com o pescoço torto. Meu cabelo foi uma jornada.

Nunca é demais relembrar que padrões de beleza são construídos por nós, humanos, ao longo do tempo e da história. A frase “a beleza está nos olhos de quem vê” tem seu fundamento. Talvez ela não esteja nos olhos de quem vê, individualmente falando mas, de fato, está sim em um contexto social mais amplo, que foi sendo consolidado ao longo dos anos, décadas, séculos. 


Fora isso, não existe cabelo bonito sem o mínimo de esforço. Nem mesmo os cachos mais largos e os fios mais sedosos podem ser do jeito que são se não forem adequadamente tratados, cuidados e preservados. Nossos fios crespos e carapinhas, então, precisam de super cuidados por serem mais ressecados, e de métodos diferenciados porque não "funcionam" da mesma forma que cabelos lisos ou simplesmente cacheados. Como ressaltou Tracee, o conhecimento sobre esses cuidados não cai do céu: ele precisa ser pesquisado, investigado, minerado - e por isso temos toda uma rede de meninas e meninos naturais na internet trocando informações sobre cabelos.

Não existem pessoas sortudas ou azaradas quando se trata de cabelos. Há sim, pessoas que ainda não conseguiram ampliar seu padrão de beleza, de forma a englobar a estética dos cabelos crespos e que por isso não conseguiram ampliar também a sua visão sobre as formas específicas de tratamento que o cabelo crespo requer.

terça-feira, 18 de março de 2014

Assumir o cabelo natural é usá-lo sempre encolhido?


Uma questão que causa discussão entre as naturais é sobre fazer ou não texturizações que modifiquem o formato dos cachos e dos fios. Enquanto algumas são adeptas de tranças, twists, coquinhos (bantu knots) e até mesmo blow outs (uma espécie de escova que não traciona muito os fios), outras acreditam que, para realmente aceitar seu cabelo natural é necessário usá-lo em seu estado de encolhimento natural, em um wash and go, com volume, em um black power.

Existem alguns fatores que facilitam ou dificultam o uso do cabelo naturalmente encolhido – e um deles é o comprimento do fio. Na minha experiência com os cabelos, percebi que, quanto mais comprido meu cabelo ficava, mais difícil se tornava a hora de desembaraçá-lo após alguns dias do wash and go. Com mais embolação vinha também mais quebra, e de brinde vários nós (tanto nozinhos de fada quanto nós em mechas propriamente ditas) que acabavam tendo que ser cortados durante o ato de pentear.

Uma das estratégias para diminuir a quantidade de nós era usar o cabelo em um penteado protetor. Eles fizeram parte da minha rotina por meses a fio e tiveram grande responsabilidade por levar meu cabelo até o comprimento que está hoje. Mas confesso que, em determinado ponto, fiquei um pouco cansada do cabelo sempre preso. Ao mesmo tempo, não queria prejudicar meus fios nem perder centímetros preciosos nas pontinhas.

Um presente do meu último wash and go

A solução que encontrei foi lançar mão de twists e twist outs. Nos últimos meses eu venho experimentando bastante com os twists grossos e acabei incorporando-os de vez à minha rotina. Embora as pontas dos cabelos fiquem “soltas”, para baixo, os fios ficam presos em mechas e alinhados, diminuindo enormemente o embaraço. Logo, eu os entendo como uma forma de também proteger os fios e conseguir reter o comprimento que ganhei. Além disso, o twist out me permite mostrar um pouco o comprimento do meu cabelo e aproveitar os centímetros que conquistei ao longo dos anos.

Essa discussão sobre usar o cabelo encolhido ou texturizado me surpreende muito, já que as blogueiras e youtubers americanas que, em sua maioria, serviram como primeira referência nos cuidados com os cabelos, vivem em twist outs, braid outs, em texturizações com coquinhos, bigoudis, bobes e uma infinidade de outros estilos. Elas também entendem que determinadas texturizações são formas de preservar seus fios, evitando que embaracem demasiadamente e facilitando a preparação de penteados presos. Muitas dificilmente abrem mão de texturizações no dia-a-dia. E, a despeito disso, em nenhum momento elas deixaram de ser naturais nem de assumir e declarar que seus cabelos eram “kinky” (ou encarapinhados/carapinha). Ao contrário, compreendem o uso dessas técnicas como parte fundamental do tratamento adequado aos cabelos crespos e encarapinhados e recomendam que suas seguidoras também experimentem.


Conclusão
O cabelo crespo e encarapinhado é versátil, e isso todas nós sabemos. Ao longo da nossa jornada, vamos descobrindo e redescobrindo formas de cuidar dos nossos fios, de acordo com nossos objetivos futuros e com a fase em que nosso cabelo se encontra. Existem várias formas de finalizar e estilizar nosso cabelo que não envolvem químicas transformadoras, e elas podem – e devem – ser pesquisadas e testadas para que você atinja seus objetivos capilares. Nós largamos a química para libertarmos nossos cabelos, então sejamos livres para usá-los como quisermos, seja em um black de parar o trânsito, em um twist out impecável ou em um look mais básico.


* * * Leia também: "Estamos julgando?"

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O tutorial de cabelos mais fofo do Instagram!

Riley ensina a fazer um penteado moicano no Instagram
Assista ao vídeo


Via Huffington Post (tradução e adaptação minhas)


Navegando pelo Instagram semana passada, nós topamos com o mais fofo tutorial para cabelos. Riley, 3 anos de idade, estrela o vídeo de 15 segundos, no qual ela explica como fazer o seu penteado de falso moicano (e nós mal conseguíamos colocar tic tacs no nosso cabelo nessa idade).

A pequena lançadora de moda, que é de Houston, Texas, explica o seu penteado em quatro simples passos:

1. Comece com um twist-out
2. Coloque grampos dos dois lados
3. Levante suas raízes
4. Ria sem parar

O ultimo passo não é apenas superfofo; ele também nos lembra que não devemos ficar frustradas com nosso cabelo e que devemos sempre nos divertir com ele.

Que seus cabelos estejam em um penteado, enfeitados com laços ou cobertos por um turbante, fica claro que Riley ama seu cabelo do jeito que ele é. Sua mãe, a fotógrafa Christin Armstrong, disse ao HuffPost Style: “Ela está sempre contente com os resultados. Elas sempre se beija e diz que está bonita.” 

(…)

A lição mais importante que aprendemos com a mãe da Riley? Sempre diga à sua filha o quão bonito é o cabelo dela.

Ela explica: “O melhor conselho que posso dar a outros pais é não comparar o cabelo da sua filha com o de outras pessoas. Riley não tem cachos abertos nem cabelo batendo na cintura, mas nós amamos o cabelo dela da mesma forma! Ensine às suas crianças quem eles são desde sempre. Diga que são bonitas sempre. Não apenas quando estão arrumadas. Não apenas quando seu cabelo estiver penteado. Diga sempre. Não deixe que ninguém as convença do contrário.”

Riley posando para o Instagram
Fonte
* * *

Muito mais importante que qualquer penteado, é o recado que a mãe nos passa. Será que as dificuldades ao lidar com o cabelinho da sua pequena natural não são fruto de de uma expectativa fora da realidade? 

Sua filha é perfeita e o cabelo dela também é. Ame-a e faça com que ela se ame também. Afinal, é isso que queremos ensinar às nossas crianças.

* * *

E você, já elogiou o cabelo da sua filha hoje? :-)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Menina pode ser expulsa da escola por causa do cabelo; instituição se retrata e diz que não irá expulsá-la

Fonte

Mal deu para digerir a última postagem, e mais uma vez nossos cabelos crespos/encarapinhados estão na mídia - infelizmente, em mais um caso que envolve discriminação. Dessa vez foi nos Estados Unidos, com uma garota de apenas 12 anos, que recebeu um ultimato: mudar seu cabelo ou ser expulsa da escola onde estuda.

Vanessa VanDyke, a menininha cheia de atitude em questão, disse que não irá cortar seu cabelo. "Ele mostra como sou única", ela diz. "Ele é armado e eu gosto dele assim", completa. Ela recebeu o apoio da mãe, que também questiona o regulamento da escola, o qual determina que os cabelos dos alunos "não podem ser uma distração": "Uma distração para uma pessoa pode não ser para a outra. Pode haver um aluno com espinhas no rosto. Vão chamar isso de distração?", indaga a mãe.

O fato é que pouco tempo depois de a notícia sair em diversos sites de notícias pelo mundo, os administradores da escola vieram a público dizer que não ordenaram que a menina cortasse o cabelo, sob o risco de expulsão, mas "apenas" que o penteasse de forma diferente.

E nesse momento, voltamos à pergunta lançada na última postagem: será que nosso cabelo é realmente aceito, do jeito que ele é de fato?

Todos nós sabemos que o cabelo crespo não cresce "para baixo", pelo menos não em um primeiro momento. Não parece justo que o fato de uma criança ter cabelo crespo deve privá-la da possibilidade de ter um cabelo comprido, já que outras meninas, com outros tipos de cabelo, podem usá-lo grande e solto. Da mesma forma, não soa igualitário que, por ter um determinado tipo de cabelo, uma aluna deva se submeter a procedimentos químicos ou até mesmo usar produtos para estilizar os fios que as outras não usem necessariamente.

O que chamou a atenção de muita gente foi o fato de esta solicitação ter vindo da escola, justamente a instituição que deveria educar as crianças no sentido de torná-los mais tolerantes às diferenças entre os indivíduos e hábeis a conviver em sociedade de forma harmônica. A família da menina reclama que ela vinha sofrendo bullying desde que começou a usar o cabelo assim, há vários meses, e a escola não tomou providências em relação a isso. Pelo contrário, reforçou o motivo do assédio ao não reconhecer a individualidade e a singularidade de um de seus alunos, e o seu direito a ser respeitado, independentemente de suas escolhas estéticas.

O fato é que, infelizmente, a escola, em geral, ainda é um espaço de reprodução de preconceitos. Não só quando se omite, quando faz vista grossa para casos como este, mas também quando ela própria aponta a vítima como culpada de seu sofrimento, ou ainda quando ela mesma reproduz o discurso do preconceito, rotulando os alunos considerados diferentes ou desviantes do perfil estético esperado.

Há de se repensar esse tipo de norma escolar que é, em essência, discriminatória. Sabemos que normas devem ser respeitadas, mas elas também devem ser alvo de que questionamento e mudança, caso não abarquem as individualidades do grupo que pretende atingir.

Fica a pergunta que fiz há algum tempo para pais e mães, dessa vez para os educadores: o queremos ensinar às nossas crianças? O que nós, enquanto educadores, podemos fazer para levar noções de respeito às diferenças para a escola?

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O “black power” ainda é considerado um penteado radical?


Neste fim de semana, durante o Encrespa Geral do Rio de Janeiro, tive a oportunidade de conhecer a Alê Hammond e, junto com as outras meninas, trocamos algumas ideias sobre cabelo em ambientes profissionais. Pudemos perceber que, infelizmente, o nosso cabelo ainda incomoda, especialmente quando é usado em um “black power”*, ou o que os americanos chamam de “afro”.

Coincidentemente, hoje achei esta reportagem, que fala sobre como o “black power” é um estilo até hoje controverso quando está, principalmente, na cabeça de pessoas que frequentam ambientes corporativos e acadêmicos.

Por muito tempo, o “black power” foi visto como um penteado que representa uma afirmação, sobretudo uma afirmação política, pois esteve ligado a um movimento muito mais amplo de afirmação da própria negritude. Neste momento específico, o destaque aos nossos cabelos crespos/encarapinhados naturais era necessário como uma forma de reforçar a identidade negra.

Hoje, vemos várias blogueiras e vlogueiras ensinando mil e uma formas de estilizar nossos cabelos crespos que vão muito além do “black” e percebemos uma maior receptividade ao cabelo natural em diferentes espaços (escola, trabalho, igreja, família). Apesar disso, o penteado “black power” ainda é algo controverso.

No vídeo da reportagem, Michaela Angela Davis, uma das entrevistadas, comenta que o cabelo afro diz coisas, especialmente porque ele é um cabelo que cresce “para cima e para fora”, e que é curioso que a maneira mais “radical” que uma pessoa de cabelo crespo possa usar seu cabelo seja deixando-o crescer ao natural, da maneira como sai de sua cabeça.

O outro entrevistado, Jody Armour, professor de Direito, conta que ouviu de um aluno que era irônico que ele ministrasse disciplinas no curso de Direito quando ele mesmo, o professor, parecia um criminoso. Ele conta também que colegas de profissão disseram que usar o cabelo “black” daquela forma era impertinente e inadequado. 

Jody Armour

Ainda que o movimento de retorno ao natural tenha conquistado lugares importantes para nossos cabelos, há certa resistência na forma como esses cabelos podem ser apresentados. O “black power” pode ser considerado por algumas pessoas demasiado radical ou extremo, ou ainda um “cabelo de militante” ou, pior, cabelo de quem é descuidado e não profissional.

Diante disso, podemos questionar: será que nossos cabelos crespos estão sendo de fato aceitos em sua plenitude, ou ainda precisam ser “domados” e adaptados a normas sociais que guardam o ranço do preconceito?

Você já sofreu preconceito ou discriminação por usar seu cabelo natural em um “black power”?


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*  Vale dizer que Black Power é o nome de um movimento em prol da afirmação da identidade, da cultura e dos interesses dos negros nos anos 60 e 70. Aqui no Brasil, o nome “black power” acabou sendo associado ao penteado característico dos militantes do movimento, que faziam questão de enfatizar os cabelos crespos como símbolo da afirmação de suas características raciais.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Você revela seus cuidados com os cabelos?




Via BlackHairInformation.com (tradução minha)

Tenho visto muitas postagens de moças reclamando que não tem apoio da família ou amigos, que estão cercadas de pessoas que as põem em dúvida e que seus amigos e familiares fazem graça de seus métodos e torcem o nariz para os produtos que usam.
Contudo, para outra questão muito popular em fóruns sobre cabelos, quando perguntadas “você compartilha segredos sobre crescimento dos cabelos na vida real?” a maior parte das mulheres diz não. Elas dão uma série de razões por que não fazem isso, mas a resposta mais surpreendente e que é frequentemente dada, é quando as mulheres dizem “que segredos?”. Como se toda a informação disponível na internet fosse prática comum e bem conhecida por todas as pessoas.
Agora eu sei que não há "segredo" para fazer crescer o cabelo, mas certamente os métodos e o conhecimento disponível em fóruns e blogs para ter um cabelo saudável não são senso comum, ou a necessidade de tais sites não existiria! Se fosse algo que “todo mundo sabe” então por que nós (enquanto raça) não temos desde sempre cabelos longos e saudáveis? Eu tenho que pensar em quantas dessas mesmas moças secretamente se aproveitam da dúvida e do isolamento das outras para esfregar seu cabelo na cara delas dentro de alguns anos. Essas mulheres acham válido serem zombadas agora apenas para rirem por último quando tiverem um cabelo (natural ou relaxado) longo, saudável e maravilhoso?
Isso me lembra aquelas moças que mostram seus progressos com aquele belíssimo cabelo na altura da cintura e quando perguntadas sobre o que fazem – ou quando pedem para que contem sobre seu regime de tratamento – respondem apenas com “Hahaha, obrigada, meninas. Eu realmente não faço muita coisa. Apenas faço co-wash com qualquer condicionador baratinho, quando eu acho que devo e faço coque na maior parte do tempo”. Isso pode ser verdade para algumas poucas sortudas, mas posso garantir que para a maioria das mulheres há mais do que um regime de tratamento simplificado. Elas hidratam e selam a hidratação? Fazem tratamentos profundos? Usam antirresíduos? A rotina de tratamento sempre foi assim simples ou elas tiveram de fazer mais alguma coisa para atingir este comprimento e agora estão apenas mantendo-o? Elas aparam as pontas com regularidade? Existe tanta informação deixada de fora! Algumas meninas ainda procuram por mais detalhes enquanto eu apenas clico no botão de “fechar” em alguns tópicos.
Quando vejo essas respostas absurdamente vagas, suspeitas e até mesmo mentirosas, fico pensando. Se você não faz questão de falar nem em um fórum sobre cabelos, em que todos tem o mesmo objetivo, então certamente não fará questão de falar para pessoas que conhece na vida real e que não tem contato com a comunidade das naturais sobre os detalhes que elas precisam saber para conseguir um cabelo longo e saudável.
Será que algumas moças querem ser as únicas negras no seu círculo imediato de amizades a ter cabelo comprido? Quando eu era mais nova, era muito comum ver uma mulher mais velha (amiga ou estranha) com um cabelo ótimo e perguntar onde ela cuidava dele. Lembro-me que, em várias dessas vezes, a mulher não dizia onde fazia o cabelo. Algumas vezes ela diria o “lugar comum”: “Ah, algum lugar pelo centro... Não lembro o nome agora, mas me lembra que eu te digo depois” mas mesmo depois de lembrá-las repetidas vezes, o nome do salão ou do profissional nunca era revelado.
Em outras ocasiões a mulher era bem direta ao dizer “não conte às pessoas quem faz meu cabelo”. Quando vejo pessoas dizerem que não falam o nome das suas fontes favoritas de pesquisa sobre cabelos, ou que elas não revelam os detalhes de suas rotinas de tratamento mesmo quando perguntadas, eu me questiono se é pela mesma razão desta atitude do “não vou te contar”.
Eu sempre compartilho tanto conhecimento quanto julgue apropriado quando alguém me pergunta sobre o meu cabelo. Se elas dizem que gostam de um penteado em particular, eu respondo com prazer e dou informação sobre como consegui aquele visual. Por exemplo, ontem alguém na igreja comentou o quanto gostava dos meus cachos e eu respondi “obrigada! Usei os flexirods cinza e roxo” porque sabia que aquela pessoa fazia o próprio cabelo e tinha noção do que eu estava falando.
Iniciei várias amigas a fóruns da internet (muitos dos quais eu mesma me cadastrei), a várias vlogueiras de cabelos, e uma de minhas amigas até criou seu próprio canal no YouTube. Algumas compraram produtos que sugeri, outras começaram a fazer tranças/coquinhos depois de me verem e minha família passou a ler algumas das minhas postagens.
Nem todo mundo vai tão fundo no jogo dos cuidados capilares como eu, e tudo bem com isso. Tudo o que faço é prover a informação que a pessoa está interessada em ouvir. Todas nós podemos tem cabelo saudável e – se assim desejarmos – longo, sem precisarmos ser mesquinhas com a informação!

* * *

E vocês? Compartilham seus segredos quando se trata de cuidados capilares ou escondem o jogo e não revelam tudo o que põem em prática?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sobre aquilo que precisamos saber


Meu cabelo não é liso.

Meu cabelo não cresce para baixo. Meu cabelo não é escorrido. A raiz do meu cabelo não é baixinha. Meu cabelo não reflete a luz em um brilho espelhado. A textura dos meus fios não é sedosa ao toque. Meu cabelo não voa ao vento como nos comerciais. Meu cabelo também não permite que eu passe os dedos por entre os fios sem que eles fiquem presos. Eu não posso pentear meus cabelos secos com uma escova nem com um pente de dentes finos. Eu não gasto cinco minutos cuidando do cabelo. Eu não posso usar qualquer xampu nem posso ficar sem leave-in. 

O meu cabelo não é liso, mas não é por isso que o meu cabelo é ruim. O meu cabelo não é liso, ele é diferente. O meu cabelo é crespo. 

O meu cabelo tem volume. Tem textura. Tem corpo. Tem molinhas, ziguezagues. Às vezes não tem nenhum dos dois – é apenas um perfeito exemplar de cabelo do tipo carapinha. Meu cabelo faz coisas que um cabelo liso não faz. Ele precisa de coisas que o cabelo liso não precisa. Por isso, ele não pode ser tratado como um cabelo liso. Ele deve ser tratado como o cabelo que ele é. 

Ele não precisa ser transformado em um cabelo liso, até porque essa transformação é impossível. Ela será meramente visual porque, em essência, ele nunca deixará de ser crespo. 


Eu preciso saber que o meu cabelo não é liso. E se o seu cabelo for como o meu, você também precisa saber disso. Mas não basta saber, assim, da boca pra fora, tem que ter consciência disso o tempo inteiro, 24 horas por dia, sete dias por semana. Pode parecer óbvio, mas de tão óbvio às vezes a gente esquece. E a partir daí, criamos expectativas irreais para o nosso cabelo e nos frustramos. De decepção em decepção, nossa autoestima vai ao chão. E pra fazer com que ela se eleve de novo, amiga, é difícil e muitas vezes dolorido... 

Seu cabelo, como meu, precisa de mãos gentis, precisa de paciência, precisa de um pouco de compreensão. Ele precisa, sobretudo, de uma mudança de olhar, de uma quebra de todos os padrões existentes sobre o que é um cabelo bom, um cabelo bonito, um cabelo saudável. 

Todos os cabelos são bons e todos os cabelos podem ser bonitos e saudáveis quando bem tratados. Um bom tratamento se define por dar ao cabelo aquilo que ele necessita. Se os nossos cabelos não são lisos, eles não serão bem tratados se forem tratados como cabelos lisos. E nós não podemos acusá-los de ruins se o que damos a eles não é aquilo que eles querem. 


O seu cabelo não é duro, o seu cabelo não é palha, o seu cabelo não precisa ser domado – ele não está fora de controle. Pare de achar que o seu cabelo não tem solução – ele não é um problema, para início de conversa! Seu cabelo apenas não é liso.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

“Posso tocar no seu cabelo?”


Se tem uma coisa que surpreende a gente é a textura do nosso cabelo real. Depois de tantos anos relaxando, alisando e escutando que ele é duro e parece palha de aço, quando nossos fios naturais começam a aparecer macios, brilhosos e hidratados na raiz, levamos um susto – pro bem, é claro! A nossa vontade de ficar passando a mão nos centímetros de cabelo virgem é quase irresistível porque a diferença é gritante – a raiz natural é infinitamente mais agradável ao toque do que o comprimento esticado e danificado. Quando o cabelo cresce e passamos de vez pela transição, podendo exibir aquela cabeleira 100% nossa, não podemos negar que chamamos a atenção por onde passamos – seja pelo tamanho do “afro” ou pelas incontáveis e minúsculas molinhas que ostentamos. 

Essa textura única não surpreende só a gente, mas a outras pessoas também. Por isso, somos muitas vezes pegas de assalto por alguém querendo colocar a mão no nosso cabelo. Toda natural tem uma história desse tipo para contar e as opiniões sobre o assunto se dividem: algumas não ligam e até acham divertido a curiosidade alheia sobre seus fios; outras detestam e acham uma imensa invasão de espaço alguém querendo tocar uma parte de seu corpo. 

As naturais que não se importam de terem o cabelo tocado se sentem lisonjeadas pela curiosidade, que na maioria das vezes vem seguida de vários elogios. Elas compreendem que cabelo crespo ou encarapinhado natural ainda é novidade para a maioria das pessoas, tanto em termos de atitude e coragem de quem decide usá-lo assim quanto em termos de sensação mesmo (será que é macio? Será que “espeta”? Será que é peruca?). Dessa forma, deixar-se tocar por outro, ainda que estranho, é uma forma desmistificar nossos cabelos e mostrar ao mundo que não somos ETs e que cabelo crespo natural não “morde”, podendo ser tão bonito e saudável quanto qualquer outro. 

Já as que repudiam mãos estranhas nos cabelos costumam se sentir invadidas em sua privacidade ou intimidade. Afinal, o cabelo é parte do corpo delas tanto quanto as pernas, os braços, o rosto – e, se pararmos para pensar, dificilmente encararemos numa boa um estranho abordar a gente na rua para perguntar “posso tocar nas suas coxas? Fora isso, muitas dizem se sentir como um animal de zoológico diante das reações negativas à recusa ao toque. Pois é, muitas pessoas se sentem ofendidas quando lhes negamos o direito de tocar em nossos cabelos, como se tivéssemos a obrigação de deixar! 

"Não toca no meu black!"

Apesar de eu tender mais para o grupo das que detestam mãos alheias nos cabelos, também compreendo e até mesmo concordo com os argumentos das naturais que gostam ou não se importam em terem seus cabelos tocados por outras pessoas. Eu costumo dizer que meu cabelo é só “pavê” e não “pacomê”, ou melhor, só para olhar e não para botar a mão. Mas ao mesmo tempo, eu não ligo que pessoas queridas ponham a mão nele, desde que pedindo permissão e da maneira correta: sem movimentos bruscos, sem correr os dedos por entre os fios, sem desmanchar os cachos, com as mãos limpas e secas... 

Acredito que, quanto às pessoas estranhas, antes de tudo, o toque precisa estar dentro de um contexto, precisa ter uma razão para acontecer. Fora isso, é necessário que se tenha educação e delicadeza no pedido. É muito legal quando uma pessoa nos faz um elogio e em seguida pede para colocar a mão nos nossos fios e podemos perceber que há uma atitude positiva nisso, que reconhece o carinho e a atenção que temos com nossos cabelos. Mas, ao contrário, é extremamente desagradável e ofensivo quando o toque vem sem aviso e percebemos que vem também acompanhado de expressões faciais e verbais de desdém, desqualificação ou repúdio ao nosso tipo de cabelo. 

Se você não gosta que ponham a mão nos seus cabelos, não sinta vergonha de falar. Seu corpo não é propriedade pública: você tem autonomia sobre ele. Agora, se você não liga quando isso acontece, preste atenção em quem põe a mão e de que maneira fazem isso. Não deixe que a sua gentileza se transforme em abuso cometido pelos “odiadores” do cabelo natural, nem lhes dê oportunidade de proferir piadas depreciativas através de você – até porque, com certeza, seus cabelos são lindos e não merecem o péssimo senso de humor de quem acha essas piadas engraçadas.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Políticas Capilares: "Cabelo expressão do meu poder"


Taí um vídeo que merece ser assistido não só pelos belos cabelos, mas principalmente pela mensagem! Ele foi originalmente postado em um grupo do facebook do qual faço parte. É claro que imediatamente me identifiquei, curti e resolvi compartilhar aqui no blog. Nem vou dar mais detalhes sobre o conteúdo porque merece ser visto e revisto.

Este vídeo foi criado pelo Elenco Cor do Brasil, uma parceria entre o Centro de Teatro do Oprimido e Kuringa Berlim. Clique aqui e assista o vídeo "Cabelo Expressão de meu Poder".

Ficha técnica
Cabelo expressão do meu Poder
Clipe do Elenco Cor do Brasil

Elenco
Alessandro Conceição
Barbara Santos
Claudia Simone S. Oliveira
Cristiano Mattos
Fernanda Dias
Graça Maria
Isabel Freitas
Robson Freire
Rosimeire Almeida
Soraia Arnoni

Letra da música: Barbara Santos
Texto do espetáculo: Barbara Santos
Diretor musical: Roni
Vídeo: hífen.cinema

Agradeço ao Laboratório Anastacia pelo envio das informações sobre o vídeo!
Saiba mais sobre o Laboratório Anastacia em sua fanpage do Facebook.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Aleatoriedades: corte, condicionador e comprinha

Olá, naturais! O post de hoje é na verdade não tem um tema específico. Tenho várias pequenas notícias para dar que, sozinhas, não preenchem uma postagem independente. Por isso, resolvi falar sobre tudo ao mesmo tempo de uma vez só.


Corte de cabelo
Como falei há algumas semanas atrás, aparei alguns centímetros do meu cabelo utilizando a técnica de trançar os fios e cortar as pontinhas finas das tranças. Ele ficou mais ou menos assim no dia seguinte à lavagem e levemente esticado por banding:

Cabelo mais curto: valeu a pena!


Curioso como nosso cabelo reage a um corte, por menor que seja! Apesar de ter cortado uns cinco centímetros, meu cabelo parece bem menor porque a retirada das pontas estragadas e cheias de nozinhos de fada fez ele encolher muito mais! Por conta disso, meus cachos estão bem mais definidos e extremamente fáceis de desembaraçar. Posso ter perdido comprimento aparente, mas gostei do resultado. Acaba que gasto até menos produto e menos tempo durante a estilização - acho que as pontinhas "sugavam" creme desnecessariamente, pelo estado calamitoso em que se encontravam.


Condicionador proibidão
Uma semana após utilizar o condicionador da Éh para cabelos ressecados Cashmere e Absoluto de Coco, só tenho coisas boa para falar. Tenho usado meu cabelo mais solto do que preso (sim, estou me sentindo a verdadeira transgressora por não usar meus penteados protetores) e meu cabelo, mesmo após uma semana, se manteve perfeito.

Minhas molinhas no dia seguinte, com o condicionador Éh

Para falar a verdade, ficou mais bonito com o passar dos dias, e olha que eu fiz e desfiz vários rabos de cavalo, o que geralmente arruína meus cachos (a ponto de não poder usar mais o cabelo solto). Além disso, meus fios continuam com sensação de hidratados, com brilho, maleáveis e não ganharam aquele aspecto de cabelo sujo que, em geral, produtos com silicone podem dar. Uma semana ainda é pouco para saber se esse vai ser o condicionador que mudará minha vida capilar para sempre, mas definitivamente eu não vou aposentá-lo nas próximas semanas!


Blusa
As naturais fashionistas gostam de acessórios para o cabelo, brincos, colares, pulseiras que eu sei muito bem e vejo nas fotos e vídeos que elas postam no YouTube. E quanto às roupas? Bom, eu acho uma graça blusas que tenham a ver com nosso cabelo. E uma delas foi essa blusa aqui, que eu comprei numa feira de produtos artesanais e é da Mania da Flor Artesanatos.

Blusinha da Mania da Flor

Além das camisas com apliques étnicos, eles também têm saias e acessórios, uns mais fofos que os outros. Na página do Facebook tem os álbuns onde você pode ver os produtos confeccionados pela marca.

...

Como um "plus", custa nada relembrar que a Bombril retirou da mídia a arte escolhida para representar o concurso de talentos promovido pela marca. A imagem original mostrava a silhueta estilizada de uma mulher com cabelo em estilo afro (ou black power, como queiram) sob o título "Mulheres que Brilham". Como todas nós sabemos o quanto nosso cabelo crespo e encarapinhado é negativa e pejorativamente associado à esponja de aço, a mobilização virtual das encaracoladas foi tão grande que a marca de produtos de limpeza resolveu mudar a imagem. Apesar de todas as explicações, não tem como não enxergar a associação da mulher de cabelo crespo à esponja de aço como uma piada de tom racista. Nosso cabelo não é palha de aço! E só pra não perder a viagem, nós mulheres não brilhamos unicamente com produtos de limpeza, viu? O racismo perdeu, mas o sexismo da campanha continua firme e forte...


E as aleatoriedades dessa semana são estas. Mais pra frente faço outro "relatório" de como meu cabelo vem se desenvolvendo com o condicionador e após o corte. E quem sabe faço mais comprinhas? 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Políticas Capilares: Transição


Há alguns dias este vídeo está rolando na internet e fazendo sucesso. Ele foi produzido e narrado pela cineasta Zina Saro-Wiwa para o New York Times e fala sobre o crescente movimento em direção ao cabelo natural feito pelas mulheres negras americanas. A própria cineasta decidiu passar por uma transição, cortando as longas tranças com apliques que já usava há bastante tempo e revelando seu padrão natural de cachos.

E as impressões dela são muito parecidas com a da maioria das meninas que decidem largar os produtos alisantes e assumir seu cabelo natural. O início é complicado, cheio de insegurança quanto à nova imagem, mas também supreendente quando percebemos que o cabelo natural não é o bicho-papão que outrora imaginamos. E, no fim das contas, ela, assim como a grande maioria de nós naturais, descobriu que um simples corte de cabelo mudou sua vida de incontáveis formas.

Mas o que me mais me chamou atenção neste minidocumentário foi o fato de, aparentemente, o movimento atual pró-cabelo natural não ter conotação política, como tiveram os "afros" nos anos 60. Assim como a autora do vídeo, eu discordo desta posição. Embora, como ela ressalta, nossas decisões tenham se dado individualmente e tenham como foco principal muitas vezes a saúde (não só dos fios, mas também do nosso corpo como um todo), nosso movimento acabou tendo, com ou sem querer, um viés político, a partir do momento que nos fez refletir sobre nossa identidade, sobre quem somos e quem decidimos ser dali para frente.

Ainda assim, vejo muitas pessoas se esquivando deste "rótulo". Cada um usa o cabelo do jeito que gosta, que acha mais bonito, mais adequado... São muitas as "desculpas" que a gente dá para usar nosso cabelo natural, normalmente evitando adotar alguma postura ideológica, que remeta à identificação com determinado grupo étnico ou cultural. É evidente também que dificilmente alguém assumirá uma posição meramente pela política, se essa for desagradável em outros aspectos da vida. 

Mas, se a escolha nos faz bem em tantos campos, porque não pensar no bem que ela faz ao mostrar que nossas idéias que vão além da beleza estética? Por que ter medo de dizer que temos orgulho do nosso cabelo porque ele sinaliza que somos mulheres negras, mestiças, afrodescendentes dispostas a ir contra a maré do alisamento que diz que devemos ser adaptadas para sermos aceitas em uma sociedade racista?

Não acho que devemos ter medo de assumir uma posição ideológica, nem quando ela se refere a algo tão "fútil" quanto o jeito que usamos nossos cabelos. Se a política em que acreditamos deve ser vivida, e se viver a política é colocá-la em prática no dia a dia, não há forma mais evidente do que a expressão desta política no nosso corpo. Mais do que  palavras, basta a nossa presença para mostrar quem somos e do que somos capazes.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Estamos julgando?


Quando descobrimos o cabelo natural, é possível que fiquemos, de certa forma, obcecadas pelo assunto. Depois de um tempo já sabemos de cor e salteado todos os ingredientes proibidos e os permitidos, ganhamos uma noção de todos os danos que nosso cabelo sofre a cada respirada que alguém dá do outro lado do mundo e das formas de evitá-los, do perigo dos alisantes, que além de estragarem o cabelo podem causar doenças terríveis e deixar nossas membranas cerebrais pintadas de azul.

E com toda essa informação nas mãos, passa a ser nosso dever alertar nossas irmãs de cabelo crespo do perigo que correm ao continuar com o uso de certos produtos. É verdade que toda essa nossa pregação, por vezes, consegue converter algumas pessoas. A cada vez que fazemos isso, sentimos que a nossa boa ação do dia foi realizada.

É claro que existem diferentes formas de ser uma naturalista, isto é, de usar o cabelo em sua forma natural. Há desde as mais ativistas, que evitam produtos testados em animais, às naturebas, que não usam cosméticos com substâncias sintéticas até aquelas que não ligam pra nada disso e são, na verdade, viciadas em produtos de todos os tipos, cores e fragrâncias. Há também aquelas crespas e encarapinhadas que são “low-profile”: aceitam uma fugida da rotina aqui, uma escova acolá, um megahair ou aplique em uma ocasião especial, ou ainda, bem de vez em quando dão um “susto” na raiz com alguma química.

Pois daí vem a minha pergunta: o quão natural um cabelo nos faz ser uma naturalista? Basta não usar "química"? Ou será que pra ser naturalista há algum requisito especial? Existem meninas que usam tranças com aplique. Outras usam tintura nos fios. Outras não fazem nada disso, mas lançam mão de bobs, twists ou bigudinhos para alterar o aspecto do cabelo e deixá-lo com aparência de cachos mais largos e definidos. Elas, de alguma forma, modificam o cabelo - seja sua cor natural, sua textura natural ou sua aparência natural. Por vezes, olhamos para um cabelo, ainda que crespo, mas modificado e duvidamos que ele seja verdadeiro. “Ela fez alguma química” ou “isso não é o cabelo dela de verdade” são as primeiras frases que pensamos ao ver um cabelo crespo ou encarapinhado “perfeito demais pra ser verdade”, ou, em outras palavras, um que fuja do padrão que temos de cabelo natural.

Será que ao olharmos para uma encarapinhada, como nós, e automaticamente avaliar seus cabelos e nos indagar sobre seus procedimentos de forma depreciativa, só porque ela não segue a mesma filosofia que seguimos não é fazer um juízo de valor sobre essa pessoa sem antes mesmo conhecer seus argumentos para tal? Será que, ao invés de nos unirmos, não estamos julgando nossas irmãs e, por consequência, nos separando mais ainda umas das outras?

Eu comecei a escrever este blog justamente pela necessidade de espalhar o que aprendi e o que descobri para outras meninas, que, como eu, tinham uma relação difícil com seus cabelos. Confesso que fui, sim, movida pela obsessão naturalista de trazer mais fiéis para o grupo das que não tem medo da chuva. E não, este artigo não é o fim do blog, muito menos uma despedida pra dizer que essa vida de naturalista não leva a nada. Muito pelo contrário! Eu continuo defendendo o cabelo natural com todas as minhas forças, e continuo querendo trazer mais adeptos a esse grupo. Mas, como sempre é bom refletir sobre nossas idéias e práticas, talvez esteja na hora de nós, naturalistas, pensarmos se o caminho da radicalidade, do apontar o dedo a alguém que não é “tão natural” quanto nós vale a pena. Talvez estas atitudes muito fundamentalistas afastem de nós aquelas que poderiam um dia se interessar pelo que temos a dizer.

Ao invés de acusar, acolha. Escute o que o outro ou outra tem a dizer – nós podemos não estar falando línguas tão diferentes assim.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Políticas capilares

Angela Davis, ativista do movimento negro americano


Com certa frequência, vemos nos meios de comunicação alguma notícia envolvendo a combinação discriminação + cabelos. Em dezembro de 2011, vimos o caso da estagiária assediada pela diretora da escola onde trabalhava por conta de seus cabelos crespos e de sua aparência corporal, considerados inadequados para aquela instituição de ensino. Mais recentemente, em março deste ano, uma aluna foi abordada e impedida de entrar em uma universidade no Pará pelo fato de seu cabelo e suas roupas serem “impróprios”. E fora os casos que chegam ao conhecimento do grande público, com frequência sabemos de alguém que precisou modificar os cabelos com o intuito de se encaixar no perfil de entrevistas e seleções de emprego – seja cortando baixinho, no caso dos homens, ou alisando, no caso das mulheres.

A estagiária Ester Cesário

De onde vem essa ideia de que o cabelo crespo ou encarapinhado não é apresentável ou formal o bastante para um ambiente de trabalho ou acadêmico? Parece que, enquanto negros, nossa “boa aparência” só é obtida disfarçando ou escondendo algo que nos identifica como aquilo que somos. Nós, negros, nunca estamos “prontos”: precisamos sempre ser ajeitados, ajustados, para nos inserirmos em determinados meios sociais. Será que somos “naturalmente inadequados”?

É chocante que esse tipo de fato aconteça ainda nos dias de hoje, e em um país como o nosso, onde a população é majoritariamente negra e miscigenada. Nesta suposta democracia racial em que vivemos, nossos cabelos naturais não deveriam ser motivo de estranhamento ou exclusão. Se são, é sinal de que essa democracia não é “tão democrática” assim...

Eu acredito que nossa aparência externa é uma espécie de mensagem visual que sinaliza para os outros algo daquilo que somos. Por mais que neguemos, nossas escolhas estéticas refletem sim, em parte, características da nossa personalidade. O mesmo vale para o nosso cabelo. Eu sei que eu não sou o meu cabelo (ele não me define totalmente, não esgota todas as possibilidades sobre quem eu sou), mas também sei que meu cabelo diz muito sobre mim. 


Por isso, eu considero nossos cabelos como que uma afirmação daquilo a que viemos. Se nossos cabelos naturais são motivo não apenas de olhares de reprovação e comentários de mau gosto, mas chega ao extremo de virar caso de polícia, como vimos nas histórias destas duas moças citadas, então eles não são uma mera questão estética ou de gosto pessoal: nossos cabelos são uma questão altamente política. Optar pelo natural e sustentar essa decisão é, portanto, também escolher entre conformar-se ou afirmar-se.