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terça-feira, 25 de março de 2014

Cabelo bonito é uma questão de sorte?


Dia desses, navegando no site Black Girl with Long Hair, encontrei uma matéria sobre o meme de internet que fizeram sobre o cabelo da atriz Tracee Ellis Ross. A figura mostra a foto de uma menininha aos prantos, com a frase “Aquele momento em que você percebe que não tem o cabelo da Tracee Ellis Ross”.

O cabelo da Tracee é inegavelmente bonito: ele é visivelmente saudável, não mostra danos e lhe dá a possibilidade de fazer inúmeros penteados e visuais diferentes. Além disso, ele parece ter cachos um pouco mais largos (apesar de a textura encarapinhada ser notada em parte dos fios), o que o coloca no rol dos cabelos “bonitos”, de acordo com o padrão estético do mundo em que vivemos.

Há quem acredite que certos tipos de cabelo precisam de química porque são naturalmente “ruins” e que as pessoas que não usam químicas podem optar por este caminho porque teriam a “sorte” de possuírem um cabelo razoavelmente “bom”. Obviamente, esse pensamento ainda está baseado na ideia que também define o padrão de beleza vigente: majoritariamente continuam sendo “bonitos”, “desejados” e “desejáveis” cabelos com cachos, de preferência mais largos, com textura do fio não áspera. Quanto mais próximo deste ideal, “melhor” seria o cabelo e “mais sorte” teria a pessoa por ter nascido com ele assim.

Há uma ideia errônea de que nossos cabelos devem ser ou estar perfeitos o tempo inteiro, sem nenhum esforço de nossa parte, e é nesse ponto que a fala da Tracee se encaixa:

Alguém disse que sou mestiça. Então meu pai é branco e minha mãe é negra e talvez esse seja o motivo de eu ter esse cabelo tão especial. Isso não é verdade, pessoal. Nós todos temos diferentes texturas, diferentes heranças étnicas, diferentes misturas, diferentes padrões de cacho e, falando por mim, eu passei por uma jornada para descobrir como esse cabelo funciona. Esse cabelo requer muito trabalho. É complicado. E as pessoas não te dizem como fazer. Essa nova onda do cabelo natural vem acontecendo, graças a Deus. Quem dera que alguém tivesse dividido comigo algumas dessas informações quando eu era mais jovem. Eu tive de descobrir sozinha. Alisei o cabelo, tive que deixar crescer de novo. Foi difícil. Meu cabelo não cresceu cortando. Cortei uma franja, isso foi uma besteira. Eu costumava sentar no salão de beleza o dia inteiro aos sábados quando era adolescente. Acordava minha mãe cedo pra quem ela esticasse meu cabelo. Dormia de bobes e ficava com o pescoço torto. Meu cabelo foi uma jornada.

Nunca é demais relembrar que padrões de beleza são construídos por nós, humanos, ao longo do tempo e da história. A frase “a beleza está nos olhos de quem vê” tem seu fundamento. Talvez ela não esteja nos olhos de quem vê, individualmente falando mas, de fato, está sim em um contexto social mais amplo, que foi sendo consolidado ao longo dos anos, décadas, séculos. 


Fora isso, não existe cabelo bonito sem o mínimo de esforço. Nem mesmo os cachos mais largos e os fios mais sedosos podem ser do jeito que são se não forem adequadamente tratados, cuidados e preservados. Nossos fios crespos e carapinhas, então, precisam de super cuidados por serem mais ressecados, e de métodos diferenciados porque não "funcionam" da mesma forma que cabelos lisos ou simplesmente cacheados. Como ressaltou Tracee, o conhecimento sobre esses cuidados não cai do céu: ele precisa ser pesquisado, investigado, minerado - e por isso temos toda uma rede de meninas e meninos naturais na internet trocando informações sobre cabelos.

Não existem pessoas sortudas ou azaradas quando se trata de cabelos. Há sim, pessoas que ainda não conseguiram ampliar seu padrão de beleza, de forma a englobar a estética dos cabelos crespos e que por isso não conseguiram ampliar também a sua visão sobre as formas específicas de tratamento que o cabelo crespo requer.

terça-feira, 18 de março de 2014

Assumir o cabelo natural é usá-lo sempre encolhido?


Uma questão que causa discussão entre as naturais é sobre fazer ou não texturizações que modifiquem o formato dos cachos e dos fios. Enquanto algumas são adeptas de tranças, twists, coquinhos (bantu knots) e até mesmo blow outs (uma espécie de escova que não traciona muito os fios), outras acreditam que, para realmente aceitar seu cabelo natural é necessário usá-lo em seu estado de encolhimento natural, em um wash and go, com volume, em um black power.

Existem alguns fatores que facilitam ou dificultam o uso do cabelo naturalmente encolhido – e um deles é o comprimento do fio. Na minha experiência com os cabelos, percebi que, quanto mais comprido meu cabelo ficava, mais difícil se tornava a hora de desembaraçá-lo após alguns dias do wash and go. Com mais embolação vinha também mais quebra, e de brinde vários nós (tanto nozinhos de fada quanto nós em mechas propriamente ditas) que acabavam tendo que ser cortados durante o ato de pentear.

Uma das estratégias para diminuir a quantidade de nós era usar o cabelo em um penteado protetor. Eles fizeram parte da minha rotina por meses a fio e tiveram grande responsabilidade por levar meu cabelo até o comprimento que está hoje. Mas confesso que, em determinado ponto, fiquei um pouco cansada do cabelo sempre preso. Ao mesmo tempo, não queria prejudicar meus fios nem perder centímetros preciosos nas pontinhas.

Um presente do meu último wash and go

A solução que encontrei foi lançar mão de twists e twist outs. Nos últimos meses eu venho experimentando bastante com os twists grossos e acabei incorporando-os de vez à minha rotina. Embora as pontas dos cabelos fiquem “soltas”, para baixo, os fios ficam presos em mechas e alinhados, diminuindo enormemente o embaraço. Logo, eu os entendo como uma forma de também proteger os fios e conseguir reter o comprimento que ganhei. Além disso, o twist out me permite mostrar um pouco o comprimento do meu cabelo e aproveitar os centímetros que conquistei ao longo dos anos.

Essa discussão sobre usar o cabelo encolhido ou texturizado me surpreende muito, já que as blogueiras e youtubers americanas que, em sua maioria, serviram como primeira referência nos cuidados com os cabelos, vivem em twist outs, braid outs, em texturizações com coquinhos, bigoudis, bobes e uma infinidade de outros estilos. Elas também entendem que determinadas texturizações são formas de preservar seus fios, evitando que embaracem demasiadamente e facilitando a preparação de penteados presos. Muitas dificilmente abrem mão de texturizações no dia-a-dia. E, a despeito disso, em nenhum momento elas deixaram de ser naturais nem de assumir e declarar que seus cabelos eram “kinky” (ou encarapinhados/carapinha). Ao contrário, compreendem o uso dessas técnicas como parte fundamental do tratamento adequado aos cabelos crespos e encarapinhados e recomendam que suas seguidoras também experimentem.


Conclusão
O cabelo crespo e encarapinhado é versátil, e isso todas nós sabemos. Ao longo da nossa jornada, vamos descobrindo e redescobrindo formas de cuidar dos nossos fios, de acordo com nossos objetivos futuros e com a fase em que nosso cabelo se encontra. Existem várias formas de finalizar e estilizar nosso cabelo que não envolvem químicas transformadoras, e elas podem – e devem – ser pesquisadas e testadas para que você atinja seus objetivos capilares. Nós largamos a química para libertarmos nossos cabelos, então sejamos livres para usá-los como quisermos, seja em um black de parar o trânsito, em um twist out impecável ou em um look mais básico.


* * * Leia também: "Estamos julgando?"

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Sobre os tipos de cachos


Vira e mexe, recebo perguntas das leitoras que querem saber o meu tipo de cabelo. Eu sempre respondo que ele é crespo-encarapinhado, que é o que, de fato, ele é. Mas eu sei que, no fundo, as pessoas querem saber onde meu cabelo se encaixa na classificação alfanumérica criada pelo Andre Walker e perpetuada pelo site Naturally Curly. Sim, aquela classificação que divide os cabelos de acordo com o tipo de cacho, em 2B, 3A, 3B, 4B etc.

Lá no início do blog eu contei que não gostava dessa classificação e como ela perdia importância quando aprendíamos a lidar com o cabelo que realmente temos na cabeça. Outras meninas tiveram a mesma percepção que eu como, por exemplo, a Claudia e a Rosangela, moderadoras do grupo CrespiiiiissimO.os do Facebook.

Ainda assim, é difícil de as naturais se desligarem dela porque é uma das primeiras informações que aparecem nas buscas sobre cabelos na internet. Contudo, percebo que, conforme essa classificação perdura, mais e mais as minhas impressões negativas sobre ela são confirmadas.


Vez ou outra, vejo naturais se perguntando o que um "cabelo do tipo 4" é capaz. Muitas vezes, quando aparece uma imagem de um cabelo que supostamente seria do tipo 4 mas faz algo ou é de um jeito “não previsto” para aquele tipo, duvida-se se realmente pertence a esta categoria, ou se seria um 3C, por exemplo.

Isso é o reflexo da hierarquia de tipos de cabelo que a classificação alfanumérica produz no imaginário das naturais. Se antes muitas meninas de tipo 4 se frustravam porque gostariam que seu cabelo fosse 3C, hoje muitas não acreditam que os cabelos tipo 4 ofereçam tantas possibilidades quanto parecem mostrar – crescer, “tombar”, ser esticado temporariamente para fazer penteados diversos, etc.

Acredito que em parte isso tenha sido gerado pela dificuldade em enquadrar os cabelos em cada uma dessas categorias, porque elas não dão conta da variedade dos nossos cabelos. Afinal, o que é um cabelo 4A, 4B ou 4C? Nem o próprio site do Naturally Curly parece ter chegado a uma conclusão. As imagens mais recentes que o site divulga sobre os tipos de cabelo são bem diferentes das fotos antigas publicadas pelo mesmo site, nas quais muitas naturais mais "antigas" se basearam para definir seu tipo de cacho. E mais diferente ainda das fotos das celebridades que eles dão como amostra de cada tipo de cabelo.

Por exemplo, a Naptural85 enquadra seu cabelo no tipo 4A. Mas ele é bem diferente da foto presente no site do Naturally Curly. Eu acho meu tipo de cacho bem parecido com o da Naptural85, guardadas as nossas diferenças em termos de produtos e finalização. Mas, de acordo com a foto do site, nem eu nem ela seríamos tipo 4A!

Fonte e fonte

Outra blogueira gringa cabeluda é a Alicia James, que entende seu cabelo como 4B. Eu acho o cabelo dela muito parecido com o da Rosangela, em termos de cachos. Mas a foto de referência do Naturally Curly não mostra com clareza o tipo de cacho da modelo (além das diferenças óbvias de formato de corte e comprimento, que também influenciam bastante no visual final) pra sabermos o que de fato é um cabelo 4B.

Fonte, fonte e fonte

E finalmente, o tipo que mais causa discórdia: o 4C. Inicialmente ele, nem existia na classificação do Andre Walker. Foi, na verdade, criado pelas leitoras do site, por "maioria de votos", digamos assim. Elas perceberam que seus cabelos encarapinhados não se enquadravam em nenhum dos tipos previstos e criaram um novo (o mesmo aconteceu com o tipo 3C). Por isso mesmo, muita gente até hoje não sabe o que é um cabelo 4C, e acaba achando que qualquer cabelo encarapinhado que, visualmente, não tenha cachos é um 4C. Ou, ao contrário, acreditam sim que o 4C forma cachos, o que deixa as meninas com fios que não formam cachos em dúvida sobre seu tipo.

Conclusão
Independentemente do tamanho dos nossos cachos, nossos cabelos de herança afro são encarapinhados. Logo, não é o nosso tipo de cacho que determinará sozinho o tratamento que devemos ter com eles. Talvez para pessoas com cabelos genuinamente cacheados, com fios de superfície lisa, o tamanho do cacho seja mais importante. Mas, para nós, precisamos ter em mente que nosso tipo de fio, a sua espessura, sua porosidade, são fatores de extrema importância no que se refere a formas de cuidar e de manusear nossos cabelos. Todas nós podemos ter o comprimento que desejarmos, ou criar os mais diferentes estilos, desde que demos aos nossos cabelos o nível ideal de hidratação e proteção que eles requerem. E sim, nossos cabelos encarapinhados podem muito mais do que sempre disseram pra gente, e não se limitam às imagens “oficiais” do Naturally Curly.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O tutorial de cabelos mais fofo do Instagram!

Riley ensina a fazer um penteado moicano no Instagram
Assista ao vídeo


Via Huffington Post (tradução e adaptação minhas)


Navegando pelo Instagram semana passada, nós topamos com o mais fofo tutorial para cabelos. Riley, 3 anos de idade, estrela o vídeo de 15 segundos, no qual ela explica como fazer o seu penteado de falso moicano (e nós mal conseguíamos colocar tic tacs no nosso cabelo nessa idade).

A pequena lançadora de moda, que é de Houston, Texas, explica o seu penteado em quatro simples passos:

1. Comece com um twist-out
2. Coloque grampos dos dois lados
3. Levante suas raízes
4. Ria sem parar

O ultimo passo não é apenas superfofo; ele também nos lembra que não devemos ficar frustradas com nosso cabelo e que devemos sempre nos divertir com ele.

Que seus cabelos estejam em um penteado, enfeitados com laços ou cobertos por um turbante, fica claro que Riley ama seu cabelo do jeito que ele é. Sua mãe, a fotógrafa Christin Armstrong, disse ao HuffPost Style: “Ela está sempre contente com os resultados. Elas sempre se beija e diz que está bonita.” 

(…)

A lição mais importante que aprendemos com a mãe da Riley? Sempre diga à sua filha o quão bonito é o cabelo dela.

Ela explica: “O melhor conselho que posso dar a outros pais é não comparar o cabelo da sua filha com o de outras pessoas. Riley não tem cachos abertos nem cabelo batendo na cintura, mas nós amamos o cabelo dela da mesma forma! Ensine às suas crianças quem eles são desde sempre. Diga que são bonitas sempre. Não apenas quando estão arrumadas. Não apenas quando seu cabelo estiver penteado. Diga sempre. Não deixe que ninguém as convença do contrário.”

Riley posando para o Instagram
Fonte
* * *

Muito mais importante que qualquer penteado, é o recado que a mãe nos passa. Será que as dificuldades ao lidar com o cabelinho da sua pequena natural não são fruto de de uma expectativa fora da realidade? 

Sua filha é perfeita e o cabelo dela também é. Ame-a e faça com que ela se ame também. Afinal, é isso que queremos ensinar às nossas crianças.

* * *

E você, já elogiou o cabelo da sua filha hoje? :-)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O “black power” ainda é considerado um penteado radical?


Neste fim de semana, durante o Encrespa Geral do Rio de Janeiro, tive a oportunidade de conhecer a Alê Hammond e, junto com as outras meninas, trocamos algumas ideias sobre cabelo em ambientes profissionais. Pudemos perceber que, infelizmente, o nosso cabelo ainda incomoda, especialmente quando é usado em um “black power”*, ou o que os americanos chamam de “afro”.

Coincidentemente, hoje achei esta reportagem, que fala sobre como o “black power” é um estilo até hoje controverso quando está, principalmente, na cabeça de pessoas que frequentam ambientes corporativos e acadêmicos.

Por muito tempo, o “black power” foi visto como um penteado que representa uma afirmação, sobretudo uma afirmação política, pois esteve ligado a um movimento muito mais amplo de afirmação da própria negritude. Neste momento específico, o destaque aos nossos cabelos crespos/encarapinhados naturais era necessário como uma forma de reforçar a identidade negra.

Hoje, vemos várias blogueiras e vlogueiras ensinando mil e uma formas de estilizar nossos cabelos crespos que vão muito além do “black” e percebemos uma maior receptividade ao cabelo natural em diferentes espaços (escola, trabalho, igreja, família). Apesar disso, o penteado “black power” ainda é algo controverso.

No vídeo da reportagem, Michaela Angela Davis, uma das entrevistadas, comenta que o cabelo afro diz coisas, especialmente porque ele é um cabelo que cresce “para cima e para fora”, e que é curioso que a maneira mais “radical” que uma pessoa de cabelo crespo possa usar seu cabelo seja deixando-o crescer ao natural, da maneira como sai de sua cabeça.

O outro entrevistado, Jody Armour, professor de Direito, conta que ouviu de um aluno que era irônico que ele ministrasse disciplinas no curso de Direito quando ele mesmo, o professor, parecia um criminoso. Ele conta também que colegas de profissão disseram que usar o cabelo “black” daquela forma era impertinente e inadequado. 

Jody Armour

Ainda que o movimento de retorno ao natural tenha conquistado lugares importantes para nossos cabelos, há certa resistência na forma como esses cabelos podem ser apresentados. O “black power” pode ser considerado por algumas pessoas demasiado radical ou extremo, ou ainda um “cabelo de militante” ou, pior, cabelo de quem é descuidado e não profissional.

Diante disso, podemos questionar: será que nossos cabelos crespos estão sendo de fato aceitos em sua plenitude, ou ainda precisam ser “domados” e adaptados a normas sociais que guardam o ranço do preconceito?

Você já sofreu preconceito ou discriminação por usar seu cabelo natural em um “black power”?


* * *


*  Vale dizer que Black Power é o nome de um movimento em prol da afirmação da identidade, da cultura e dos interesses dos negros nos anos 60 e 70. Aqui no Brasil, o nome “black power” acabou sendo associado ao penteado característico dos militantes do movimento, que faziam questão de enfatizar os cabelos crespos como símbolo da afirmação de suas características raciais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O papel dos nossos parceiros

Fonte

Em nossa jornada capilar, e especialmente na fase de transição, é comum escutarmos opiniões não muito encorajadoras vindas das pessoas que amamos. Dentre estas pessoas, a opinião do parceiro (namorado, noivo, marido) acaba tendo um peso muito grande na tomada de decisão das mulheres que desejam cabelo natural. 

Durante o tempo em que andei sem tempo para escrever material para o blog, minha participação na comunidade virtual natural se resumia a ler as atualizações de alguns dos fóruns de discussão de que faço parte. Ainda que em uma leitura rápida e superficial, percebi que eram muito frequentes as moças com preocupações relativas à aceitação de seus cabelos por seus parceiros. 

A insegurança aparecia antes do big chop, após o big chop, durante os tratamentos mirabolantes com receitas caseiras ou na hora de proteger o cabelo para dormir. Quase todas admitiam abrir mão deste ou daquele detalhe de uma rotina que consideravam ideal pelo temos à rejeição. Algumas, inclusive, consideravam seriamente desistir dos cabelos naturais e voltar aos alisamentos porque seus companheiros diziam não gostar de cabelos curtos ou crespos. 

Entendo que cada um de nós tenha suas preferências em termos de beleza. Mas também compreendo que, em uma relação amorosa, a fronteira da atração meramente visual já tenha sido superada e a ligação entre as pessoas envolvidas já se encontre em outro nível. Por isso, me choca ler casos como este do blog Curly Nikki, em que a mulher relata quase ter perdido seu casamento por causa do cabelo. 

O homem deste caso em especial alegou que aquela mulher pós big chop, de cabelo curto e crespo, não foi a mulher que ele conheceu (pelo que parece, ela tinha cabelo comprido e alisado na época). Além disso, também reclamou do fato de não ter sido consultado quanto à mudança. 

Bom, mudanças são inevitáveis. As pessoas engordam, envelhecem, ficam carecas; às vezes por um infortúnio ganham cicatrizes ou por um bom motivo fazem uma tatuagem. O fato é que nunca seremos os mesmos durante toda a vida e temos todo o direito de não querer sê-lo! Todos nós podemos nos reinventar e fazer diferente quando desejarmos. 

Ainda que em uma relação os parceiros possam e devam ser informados de certas decisões radicais, é preciso entender que nem sempre um dos lados vai mudar de ideia e voltar atrás só porque o outro não gostou. A consulta é importante, mas ela não pode se transformar em uma ordem ou um veto. 

Por fim, acredito no diálogo entre o casal, mas um diálogo que vá além da questão estética. Todas que passam pelo processo de volta ao cabelo natural sabem como este assunto é profundo e mexe com sentimentos. Que tal falar sobre o quanto a transição e o big chop significam para você? Seja sincera e aberta, diga como se sente, explique o que o alisamento não condiz mais com a pessoa que você é agora e que deseja ser no futuro. Mostre que a jornada para o natural é também uma jornada para sua felicidade – e duvido que alguém que ame sua parceira não vai querer vê-la feliz! Qualquer pessoa feliz consigo mesma, tenha ela o cabelo curto ou longo, crespo ou liso, loiro ou castanho, irradia beleza.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Adolescentes e seus ídolos

Fonte


A nossa história conflituosa com os cabelos começa na infância. Desde muito jovens, em uma idade da qual nem lós lembramos, já nos víamos às voltas com escovas, químicas, sessões dolorosas de desembaraço e comentários depreciativos. 

Contudo, é na adolescência que essa insegurança se consolida e se radicaliza. A adolescência já é, por si mesma, uma fase conturbada, quando levantamos uma série de dúvidas sobre nós mesmos, especialmente em relação à aparência. “Sou bonita o suficiente?”, “vou ser aceita em um grupo?”, “o que os meninos vão pensar de mim?”.

Sendo os cabelos um elemento tão significativo no visual, não é de se estranhar que ele seja um dos principais focos de insegurança das adolescentes crespas e cacheadas. É nesta época que muitas garotas decidem alisar os cabelos, na tentativa de não se sentirem um “peixe fora d’água”.

É nesta época também que muitas de nós escolhemos nossos ídolos, nossos modelos comportamentais e estéticos. Queremos ser como eles, agir como eles, queremos nos vestir e nos parecer com eles. Pai e mãe se tornam chatos, cafonas, caretas, enquanto o artista da TV ou aquela amiga linda e popular da escola são o máximo.

Em uma idade em que a opinião dos adultos já não parece importar tanto, qual o papel dos nossos ídolos na construção do nosso padrão de beleza? Que ídolos nos são oferecidos como modelo?

Na minha pré adolescência, imperavam os seriados americanos como Barrados no Baile: jovens ricas, bem sucedidas, lindas, loiras e... Lisas! (OK, tinha a Brenda que era morena – e talvez por isso fosse a minha favorita). Mesmo séries com atores negros mostravam atrizes com cabelos alisados.

Fonte

Só mais tarde fomos apresentados a personagens como Carrie Bradshaw, de Sex and the City, que nas primeiras temporadas combinava seu cabelo cacheado meio bagunçado com os looks mais fashion possíveis, e Kady, a filha mais nova do seriado Eu, a patroa e as crianças, talvez uma das primeiras meninas a usarem cabelo crespo solto de que me recordo.

Fonte

No Brasil, por muito tempo fomos totalmente carentes de modelos a serem admirados – lembro do entusiasmo com a estreia de Isabel Filardis e com os cachos de Ana Paula Arósio. Mais recentemente, Aisha Jambo, Taís Araújo e Sheron Menezzes, entre outras, vieram engrossar o caldo da sopa de encaracoladas da TV, ainda que algumas delas, eventualmente, tenham desfilado com cachos quimicamente tratados.

Sheron Menezzes

O grande dilema dos adultos que lidam com adolescentes às voltas com seus cabelos é mostrar a elas que sua beleza é admirável, ainda que destoe daquele padrão predominante mostrado na TV. É certo que as jovens em grande parte das vezes, tomam as mulheres adultas mais próximas (mãe, tia) como modelo de contestação e não necessariamente de imitação. Por isso e importante construir as bases desde sempre, dando como exemplo não suas palavras, mas suas atitudes – porque adolescentes detestam qualquer coisa que possa ser entendida como hipocrisia. Não peça à sua filha que ame o cabelo dela: você mesma, ame seu próprio cabelo e deixe transparecer isso em todos os aspectos da sua vida e seus atos do cotidiano.

É certo que a sabedoria vem com a maturidade, mas os anos turbulentos da adolescência podem ser um pouco mais fáceis com uma dose de compreensão e acolhimento.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Você revela seus cuidados com os cabelos?




Via BlackHairInformation.com (tradução minha)

Tenho visto muitas postagens de moças reclamando que não tem apoio da família ou amigos, que estão cercadas de pessoas que as põem em dúvida e que seus amigos e familiares fazem graça de seus métodos e torcem o nariz para os produtos que usam.
Contudo, para outra questão muito popular em fóruns sobre cabelos, quando perguntadas “você compartilha segredos sobre crescimento dos cabelos na vida real?” a maior parte das mulheres diz não. Elas dão uma série de razões por que não fazem isso, mas a resposta mais surpreendente e que é frequentemente dada, é quando as mulheres dizem “que segredos?”. Como se toda a informação disponível na internet fosse prática comum e bem conhecida por todas as pessoas.
Agora eu sei que não há "segredo" para fazer crescer o cabelo, mas certamente os métodos e o conhecimento disponível em fóruns e blogs para ter um cabelo saudável não são senso comum, ou a necessidade de tais sites não existiria! Se fosse algo que “todo mundo sabe” então por que nós (enquanto raça) não temos desde sempre cabelos longos e saudáveis? Eu tenho que pensar em quantas dessas mesmas moças secretamente se aproveitam da dúvida e do isolamento das outras para esfregar seu cabelo na cara delas dentro de alguns anos. Essas mulheres acham válido serem zombadas agora apenas para rirem por último quando tiverem um cabelo (natural ou relaxado) longo, saudável e maravilhoso?
Isso me lembra aquelas moças que mostram seus progressos com aquele belíssimo cabelo na altura da cintura e quando perguntadas sobre o que fazem – ou quando pedem para que contem sobre seu regime de tratamento – respondem apenas com “Hahaha, obrigada, meninas. Eu realmente não faço muita coisa. Apenas faço co-wash com qualquer condicionador baratinho, quando eu acho que devo e faço coque na maior parte do tempo”. Isso pode ser verdade para algumas poucas sortudas, mas posso garantir que para a maioria das mulheres há mais do que um regime de tratamento simplificado. Elas hidratam e selam a hidratação? Fazem tratamentos profundos? Usam antirresíduos? A rotina de tratamento sempre foi assim simples ou elas tiveram de fazer mais alguma coisa para atingir este comprimento e agora estão apenas mantendo-o? Elas aparam as pontas com regularidade? Existe tanta informação deixada de fora! Algumas meninas ainda procuram por mais detalhes enquanto eu apenas clico no botão de “fechar” em alguns tópicos.
Quando vejo essas respostas absurdamente vagas, suspeitas e até mesmo mentirosas, fico pensando. Se você não faz questão de falar nem em um fórum sobre cabelos, em que todos tem o mesmo objetivo, então certamente não fará questão de falar para pessoas que conhece na vida real e que não tem contato com a comunidade das naturais sobre os detalhes que elas precisam saber para conseguir um cabelo longo e saudável.
Será que algumas moças querem ser as únicas negras no seu círculo imediato de amizades a ter cabelo comprido? Quando eu era mais nova, era muito comum ver uma mulher mais velha (amiga ou estranha) com um cabelo ótimo e perguntar onde ela cuidava dele. Lembro-me que, em várias dessas vezes, a mulher não dizia onde fazia o cabelo. Algumas vezes ela diria o “lugar comum”: “Ah, algum lugar pelo centro... Não lembro o nome agora, mas me lembra que eu te digo depois” mas mesmo depois de lembrá-las repetidas vezes, o nome do salão ou do profissional nunca era revelado.
Em outras ocasiões a mulher era bem direta ao dizer “não conte às pessoas quem faz meu cabelo”. Quando vejo pessoas dizerem que não falam o nome das suas fontes favoritas de pesquisa sobre cabelos, ou que elas não revelam os detalhes de suas rotinas de tratamento mesmo quando perguntadas, eu me questiono se é pela mesma razão desta atitude do “não vou te contar”.
Eu sempre compartilho tanto conhecimento quanto julgue apropriado quando alguém me pergunta sobre o meu cabelo. Se elas dizem que gostam de um penteado em particular, eu respondo com prazer e dou informação sobre como consegui aquele visual. Por exemplo, ontem alguém na igreja comentou o quanto gostava dos meus cachos e eu respondi “obrigada! Usei os flexirods cinza e roxo” porque sabia que aquela pessoa fazia o próprio cabelo e tinha noção do que eu estava falando.
Iniciei várias amigas a fóruns da internet (muitos dos quais eu mesma me cadastrei), a várias vlogueiras de cabelos, e uma de minhas amigas até criou seu próprio canal no YouTube. Algumas compraram produtos que sugeri, outras começaram a fazer tranças/coquinhos depois de me verem e minha família passou a ler algumas das minhas postagens.
Nem todo mundo vai tão fundo no jogo dos cuidados capilares como eu, e tudo bem com isso. Tudo o que faço é prover a informação que a pessoa está interessada em ouvir. Todas nós podemos tem cabelo saudável e – se assim desejarmos – longo, sem precisarmos ser mesquinhas com a informação!

* * *

E vocês? Compartilham seus segredos quando se trata de cuidados capilares ou escondem o jogo e não revelam tudo o que põem em prática?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sobre aquilo que precisamos saber


Meu cabelo não é liso.

Meu cabelo não cresce para baixo. Meu cabelo não é escorrido. A raiz do meu cabelo não é baixinha. Meu cabelo não reflete a luz em um brilho espelhado. A textura dos meus fios não é sedosa ao toque. Meu cabelo não voa ao vento como nos comerciais. Meu cabelo também não permite que eu passe os dedos por entre os fios sem que eles fiquem presos. Eu não posso pentear meus cabelos secos com uma escova nem com um pente de dentes finos. Eu não gasto cinco minutos cuidando do cabelo. Eu não posso usar qualquer xampu nem posso ficar sem leave-in. 

O meu cabelo não é liso, mas não é por isso que o meu cabelo é ruim. O meu cabelo não é liso, ele é diferente. O meu cabelo é crespo. 

O meu cabelo tem volume. Tem textura. Tem corpo. Tem molinhas, ziguezagues. Às vezes não tem nenhum dos dois – é apenas um perfeito exemplar de cabelo do tipo carapinha. Meu cabelo faz coisas que um cabelo liso não faz. Ele precisa de coisas que o cabelo liso não precisa. Por isso, ele não pode ser tratado como um cabelo liso. Ele deve ser tratado como o cabelo que ele é. 

Ele não precisa ser transformado em um cabelo liso, até porque essa transformação é impossível. Ela será meramente visual porque, em essência, ele nunca deixará de ser crespo. 


Eu preciso saber que o meu cabelo não é liso. E se o seu cabelo for como o meu, você também precisa saber disso. Mas não basta saber, assim, da boca pra fora, tem que ter consciência disso o tempo inteiro, 24 horas por dia, sete dias por semana. Pode parecer óbvio, mas de tão óbvio às vezes a gente esquece. E a partir daí, criamos expectativas irreais para o nosso cabelo e nos frustramos. De decepção em decepção, nossa autoestima vai ao chão. E pra fazer com que ela se eleve de novo, amiga, é difícil e muitas vezes dolorido... 

Seu cabelo, como meu, precisa de mãos gentis, precisa de paciência, precisa de um pouco de compreensão. Ele precisa, sobretudo, de uma mudança de olhar, de uma quebra de todos os padrões existentes sobre o que é um cabelo bom, um cabelo bonito, um cabelo saudável. 

Todos os cabelos são bons e todos os cabelos podem ser bonitos e saudáveis quando bem tratados. Um bom tratamento se define por dar ao cabelo aquilo que ele necessita. Se os nossos cabelos não são lisos, eles não serão bem tratados se forem tratados como cabelos lisos. E nós não podemos acusá-los de ruins se o que damos a eles não é aquilo que eles querem. 


O seu cabelo não é duro, o seu cabelo não é palha, o seu cabelo não precisa ser domado – ele não está fora de controle. Pare de achar que o seu cabelo não tem solução – ele não é um problema, para início de conversa! Seu cabelo apenas não é liso.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Correndo no seu próprio ritmo


Via Care For Your Hair (tradução minha)

Olá, moças, 

Foi uma questão de tempo até que eu escrevesse algo sobre as Olimpíadas e a sua relevância para os cabelos! Agora eu sei que vou soar muito como a mamãe, a titia, a amiga ou a professora que gosta de encontrar uma lição de moral em tudo... Mas há, honestamente, um pouco a ser aprendido nesses Jogos Olímpicos. 

Sentada na minha sala assistindo os atletas olímpicos se prepararem para as corridas de 100, 200 e até mesmo de 1000m (muito bem, Farah), uma coisa me acertou. O simples fato de muitos deles (embora quisessem vencer) estarem correndo a sua própria corrida. 

Muitos atletas que vieram à imprensa mencionaram diversas vezes a importância de focar em sua própria corrida e não olhar o quão à frente ou atrás os demais competidores estavam... Manter o foco em si mesmo e em seu objetivo. 

Cada vez mais, muitos dos atletas estavam sendo parabenizados por baterem seus recordes pessoais, ainda que não tivessem ganhado a medalha de ouro. 

“Tá bom, então o que isso tem a ver com cabelo?” você diz. Tem a ver com a jornada capilar no sentido de que, sim, muitas de nós somos, agora, naturais e estamos em busca de cabelos longos e saudáveis, mas não devemos desviar nossa atenção de nossas próprias jornadas para prestar atenção em quanto mais o cabelo desta youtuber ou daquela blogueira cresceu em relação ao nosso. Eu garanto que se Bolt tivesse prestado mais atenção nos atletas ao seu redor, analisando cada movimento durante a corrida, ele teria perdido e chegado a lugar nenhum (sim, eu tive de citá-lo: este post não teria relevância nenhuma se não o tivesse mencionado). 

Inspire-se através de outras naturais, mas tenha como único objetivo encontrar o que funciona para você e para o seu cabelo, o que o seu cabelo gosta ou não gosta, e assim por diante. 

Nos esportes, o doping não leva a nada e pode ter mais riscos à saúde do que benefícios... Atletas que se dopam acabam não podendo competir, então pra quê isso?... 

Então para de tentar trapacear para chegar ao final da corrida. Se eu fosse paga pela quantidade de vezes que me perguntaram como fazer o cabelo crescer mais rápido eu conseguiria dinheiro suficiente para ir à cerimônia de abertura do Jogos Olímpicos! Já escutei sobre moças tomando pílulas formuladas para animais ou usando cremes vaginais no couro cabeludo, tudo em nome do crescimento do cabelo... Isso é loucura! Moças, existe uma razão para os cremes serem feitos para usar “lá embaixo”. Eu garanto que se eles fossem cremes milagrosos para crescer os cabelos os médicos já os estariam vendendo assim. 

É melhor comer direito, levar uma vida saudável, adotar práticas de cuidado capilar corretas e o seu cabelo sem dúvida nenhuma florescerá. 

Também adoro o jeito como Jessica Ennis falou sobre bloquear a pressão e as expectativas de outras pessoas e fazer o melhor possível... Felizmente o melhor a levou à medalha de ouro! 

Em relação ao cabelo... Ignore o tipo de cabelo e faça o que você tem que fazer... Torne-se natural. Simples! Não é à força que o seu cabelo ficará do mesmo tamanho e volume de outra natural já no 2º ano de sua jornada. Não sucumba às pressões desnecessárias, apenas aproveite cada momento. Haverá tempos em que você vai desejar que seu cabelo estivesse como no início, quando você usava menos produtos e economizava mais dinheiro... Acredite. 

No mais, moças, corram suas próprias corridas não só no que diz respeito aos cabelos, mas em todos os aspectos de suas vidas e com certeza vocês colherão os louros disso tudo.

***

Apesar de ter me desviado um pouco do assunto crescimento dos cabelos nas últimas postagens, resolvi voltar ao tema depois de perceber que muitas meninas andam meio decepcionadas com suas jornadas capilares - e essa postagem caiu como uma luva para o momento! Na verdade, a gente acaba criando expectativas que não correspondem à realidade e para atendê-las por vezes acabamos recorrendo a métodos duvidosos e perigosos para a saúde.

Como blogueira defensora e dona de um cabelo natural prefiro nem citar os nomes dos medicamentos "da moda" para fazer crescer o cabelo, apesar de a maioria já saber quais são, inclusive estar ciente de que foram formulados para uso veterinário. Limito-me a reforçar minha opinião de que eles não devem ser usados em hipótese alguma na sua cabeça e que se alguém lhe recomendar utilização, FUJA!

Sua jornada em busca do cabelo natural não é uma prova de velocidade, é uma maratona que dura a vida toda - devagar e sempre!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Tendo dúvidas sobre sua jornada capilar?



Por Bennii Blast do The Culture Pine, via Curly Nikki (tradução minha)

Nós vemos tantas histórias de sucesso dentro do universo dos cabelos naturais que podemos quase nos sentir envergonhadas ou culpadas se temos uma ou outra dúvida sobre nossa própria jornada em busca do cabelo natural. Assim como em qualquer outro aspecto da sociedade, o que a maioria está fazendo é considerado “normal” e qualquer coisa fora deste denominador comum é motivo de preocupação. Bom, deixe-me falar: não há absolutamente nada extraterrestre em ter algumas dúvidas! 

Pode parecer que você é a única experimentando alguns pensamentos negativos, mas adivinhe? Junto com inúmeras outras moças, eu estou na mesma situação que você. Por exemplo, observando uma de minhas irmãs passar tranquila pelo seu dia de lavar o cabelo me desperta todos os tipos de sentimentos de inveja capilar, porque eu sei que vou levar o dobro do tempo que ela levou. Ou, naqueles dias em que perco toda a inspiração para estilizar meu cabelo, eu me lembro daqueles tempos em que ele simplesmente estaria baixinho, do jeito que eu queria. Nem que seja por um momento ou outro eu me pego pensando “e se eu ainda fosse relaxada”... Isso significa que eu me arrependo da minha decisão de ter o cabelo natural? De jeito nenhum!

Nós nos acostumamos a lidar com cabelo relaxado - para muitas de nós a maior parte de nossas vidas -  então é natural que isso possa assombrar nossos pensamentos de vez em quando. O truque é, antes de tudo, relembrar os motivos que nos fizeram optar por uma abordagem diferente em relação aos cuidados com os nossos cabelos. Você viu algo em você mesma quando embarcou nesta jornada que lhe disse “eu sou capaz de fazer isso”. Tente redescobrir sua confiança e não deixe que um dia estranho desvie você dos seus objetivos. Se você sentir que está tendo mais do que algumas simples dúvidas não fique sozinha... Fale com alguém antes de tomar qualquer decisão radical! 

Dúvidas aparecem em qualquer âmbito da vida. Não permita que elas sejam um obstáculo; chegue à raiz da dúvida para ter a chance de decifrá-la e superá-la. Há muitas de nós aqui dentro da comunidade de cabelos naturais apoiando você, então...

Fique firme e se expresse!

***

Quem é que não teve o seu momento de dúvida, não é? Mas altos e baixos fazem parte da vida. Nem tudo é perfeito o tempo todo, nem tudo sai exatamente do jeito que a gente quer. Mas nossa jornada capilar nos mostra coisas que vão muito além dos simples cuidados com a aparência. Conhecer métodos e técnicas adequados aos nossos cabelos acaba se tornando um mero detalhe nesse percurso. A capacidade de lidar com adversidades e buscar saídas criativas para determinados impasses, assim como o resgate da nossa autoconfiança são algumas das importantes lições que nosso cabelo nos ensina.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

“Posso tocar no seu cabelo?”


Se tem uma coisa que surpreende a gente é a textura do nosso cabelo real. Depois de tantos anos relaxando, alisando e escutando que ele é duro e parece palha de aço, quando nossos fios naturais começam a aparecer macios, brilhosos e hidratados na raiz, levamos um susto – pro bem, é claro! A nossa vontade de ficar passando a mão nos centímetros de cabelo virgem é quase irresistível porque a diferença é gritante – a raiz natural é infinitamente mais agradável ao toque do que o comprimento esticado e danificado. Quando o cabelo cresce e passamos de vez pela transição, podendo exibir aquela cabeleira 100% nossa, não podemos negar que chamamos a atenção por onde passamos – seja pelo tamanho do “afro” ou pelas incontáveis e minúsculas molinhas que ostentamos. 

Essa textura única não surpreende só a gente, mas a outras pessoas também. Por isso, somos muitas vezes pegas de assalto por alguém querendo colocar a mão no nosso cabelo. Toda natural tem uma história desse tipo para contar e as opiniões sobre o assunto se dividem: algumas não ligam e até acham divertido a curiosidade alheia sobre seus fios; outras detestam e acham uma imensa invasão de espaço alguém querendo tocar uma parte de seu corpo. 

As naturais que não se importam de terem o cabelo tocado se sentem lisonjeadas pela curiosidade, que na maioria das vezes vem seguida de vários elogios. Elas compreendem que cabelo crespo ou encarapinhado natural ainda é novidade para a maioria das pessoas, tanto em termos de atitude e coragem de quem decide usá-lo assim quanto em termos de sensação mesmo (será que é macio? Será que “espeta”? Será que é peruca?). Dessa forma, deixar-se tocar por outro, ainda que estranho, é uma forma desmistificar nossos cabelos e mostrar ao mundo que não somos ETs e que cabelo crespo natural não “morde”, podendo ser tão bonito e saudável quanto qualquer outro. 

Já as que repudiam mãos estranhas nos cabelos costumam se sentir invadidas em sua privacidade ou intimidade. Afinal, o cabelo é parte do corpo delas tanto quanto as pernas, os braços, o rosto – e, se pararmos para pensar, dificilmente encararemos numa boa um estranho abordar a gente na rua para perguntar “posso tocar nas suas coxas? Fora isso, muitas dizem se sentir como um animal de zoológico diante das reações negativas à recusa ao toque. Pois é, muitas pessoas se sentem ofendidas quando lhes negamos o direito de tocar em nossos cabelos, como se tivéssemos a obrigação de deixar! 

"Não toca no meu black!"

Apesar de eu tender mais para o grupo das que detestam mãos alheias nos cabelos, também compreendo e até mesmo concordo com os argumentos das naturais que gostam ou não se importam em terem seus cabelos tocados por outras pessoas. Eu costumo dizer que meu cabelo é só “pavê” e não “pacomê”, ou melhor, só para olhar e não para botar a mão. Mas ao mesmo tempo, eu não ligo que pessoas queridas ponham a mão nele, desde que pedindo permissão e da maneira correta: sem movimentos bruscos, sem correr os dedos por entre os fios, sem desmanchar os cachos, com as mãos limpas e secas... 

Acredito que, quanto às pessoas estranhas, antes de tudo, o toque precisa estar dentro de um contexto, precisa ter uma razão para acontecer. Fora isso, é necessário que se tenha educação e delicadeza no pedido. É muito legal quando uma pessoa nos faz um elogio e em seguida pede para colocar a mão nos nossos fios e podemos perceber que há uma atitude positiva nisso, que reconhece o carinho e a atenção que temos com nossos cabelos. Mas, ao contrário, é extremamente desagradável e ofensivo quando o toque vem sem aviso e percebemos que vem também acompanhado de expressões faciais e verbais de desdém, desqualificação ou repúdio ao nosso tipo de cabelo. 

Se você não gosta que ponham a mão nos seus cabelos, não sinta vergonha de falar. Seu corpo não é propriedade pública: você tem autonomia sobre ele. Agora, se você não liga quando isso acontece, preste atenção em quem põe a mão e de que maneira fazem isso. Não deixe que a sua gentileza se transforme em abuso cometido pelos “odiadores” do cabelo natural, nem lhes dê oportunidade de proferir piadas depreciativas através de você – até porque, com certeza, seus cabelos são lindos e não merecem o péssimo senso de humor de quem acha essas piadas engraçadas.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nenhum cabelo é perfeito?



Eu vejo muitas naturais "recém-convertidas" assustadas com o cabelo que surge de suas cabeças. Em fase de transição, tudo é novidade. E quando ela se conclui e cortamos os últimos centímetros de cabelo alisado, ficamos supresas com o resultado final.

Sempre surgem dúvidas quanto ao tipo de cabelo. E mais dúvidas sugem quando vemos que existem vários tipos de cabelo na nossa cabeça. Por vezes nos queixamos quanto a isso e achamos que determinadas partes do nosso cabelo tem problemas, porque não cacheiam da mesma forma que o resto. Normalmente a parte da coroa, o alto da cabeça, tem fios de textura bem diferente da área da nuca, por exemplo. E em muitos casos, a assimetria de texturas é vista em lados diferentes: algumas pessoas tem o cabelo mais crespo do lado esquerdo e mais cacheado do lado direito, por exemplo. Outras possuem um lado com molinhas mais definidas e o outro lado mais encarapinhado.

No meu caso, a área da coroa tem fios muito mais encarapinhados, só que com um diâmetro de cacho mais aberto, o que resulta em uma enorme tendência ao ressecamento e à indefinição - para desmistificar aquela idéia de que cabelo encarapinhado é necessariamente superenrolado... As minhas molinhas da nuca são as mais apertadinhas, mas ao mesmo tempo as mais definidas e uniformes, formando-se sem problemas e com o mínimo de esforço - e mantendo-se hidratadas com muito mais facilidade.

Os fios do topo da cabeça, cheios de frizz
e os da parte de baixo, todos definidinhos

O crescimento também se dá de forma assimétrica. É só olhar para o nosso corpo e perceber que não somos exatamante do mesmo tamanho dos dois lados (o meu pé direito é maior que o esquerdo, por exemplo!). Pode acontecer de determinadas partes do cabelo crescerem mais rápido do que outras também. Eu tenho um "buraco" de um lado do cabelo que até hoje não sei se é por causa de um corte errado há quatro anos atrás ou da diferença no ritmo de crescimento dos fios. Só sei que, mesmo após o corte no início de junho, o buraco permanece (talvez menos visível que antes, mas ainda permanece).

Será que dá para ver o meu "buraco"?
Fica próximo ao ombro...


Outro "problema" é o encolhimento. Como fazer esse cabelo crescer pra baixo??? Como falamos anteriormente, o encolhimento é uma característica dos cabelos naturalmente crespos e encarapinhados. Existem formas de diminuí-lo, mas se você quer ter um cabelo realmente natural, precisa compreendê-lo e aprender a conviver com ele. O fato do nosso cabelo encolher tanto pode ser um ponto positivo, a partir do momento que nos proporciona versatilidade (podemos ter um cabelo curtinho ou um cabelão pelas costas, basta utilizar a técnica certa!).

Nem tudo é o que parece!
Comprimento real do meu cabelo
(em junho/2012)


Nosso cabelo não é perfeito, e nunca será, se pensarmos que perfeição é aquela mostrada pelos cabelos dos editoriais de moda e de propagandas de produtos cosméticos. Nosso cabelo é perfeito sim, dentro de todas as suas idiossincrasias. Ele é natural e a beleza da natureza está justamente no fato de nunca se repetir exatamente do mesmo jeito, da mesma forma, em momentos ou lugares diferentes. Aproveite os diferentes humores dos seus cabelos encarapinhados e as diferentes personalidades que ele pode proporcionar a você a cada dia.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Políticas Capilares: "Cabelo expressão do meu poder"


Taí um vídeo que merece ser assistido não só pelos belos cabelos, mas principalmente pela mensagem! Ele foi originalmente postado em um grupo do facebook do qual faço parte. É claro que imediatamente me identifiquei, curti e resolvi compartilhar aqui no blog. Nem vou dar mais detalhes sobre o conteúdo porque merece ser visto e revisto.

Este vídeo foi criado pelo Elenco Cor do Brasil, uma parceria entre o Centro de Teatro do Oprimido e Kuringa Berlim. Clique aqui e assista o vídeo "Cabelo Expressão de meu Poder".

Ficha técnica
Cabelo expressão do meu Poder
Clipe do Elenco Cor do Brasil

Elenco
Alessandro Conceição
Barbara Santos
Claudia Simone S. Oliveira
Cristiano Mattos
Fernanda Dias
Graça Maria
Isabel Freitas
Robson Freire
Rosimeire Almeida
Soraia Arnoni

Letra da música: Barbara Santos
Texto do espetáculo: Barbara Santos
Diretor musical: Roni
Vídeo: hífen.cinema

Agradeço ao Laboratório Anastacia pelo envio das informações sobre o vídeo!
Saiba mais sobre o Laboratório Anastacia em sua fanpage do Facebook.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Políticas Capilares: Transição


Há alguns dias este vídeo está rolando na internet e fazendo sucesso. Ele foi produzido e narrado pela cineasta Zina Saro-Wiwa para o New York Times e fala sobre o crescente movimento em direção ao cabelo natural feito pelas mulheres negras americanas. A própria cineasta decidiu passar por uma transição, cortando as longas tranças com apliques que já usava há bastante tempo e revelando seu padrão natural de cachos.

E as impressões dela são muito parecidas com a da maioria das meninas que decidem largar os produtos alisantes e assumir seu cabelo natural. O início é complicado, cheio de insegurança quanto à nova imagem, mas também supreendente quando percebemos que o cabelo natural não é o bicho-papão que outrora imaginamos. E, no fim das contas, ela, assim como a grande maioria de nós naturais, descobriu que um simples corte de cabelo mudou sua vida de incontáveis formas.

Mas o que me mais me chamou atenção neste minidocumentário foi o fato de, aparentemente, o movimento atual pró-cabelo natural não ter conotação política, como tiveram os "afros" nos anos 60. Assim como a autora do vídeo, eu discordo desta posição. Embora, como ela ressalta, nossas decisões tenham se dado individualmente e tenham como foco principal muitas vezes a saúde (não só dos fios, mas também do nosso corpo como um todo), nosso movimento acabou tendo, com ou sem querer, um viés político, a partir do momento que nos fez refletir sobre nossa identidade, sobre quem somos e quem decidimos ser dali para frente.

Ainda assim, vejo muitas pessoas se esquivando deste "rótulo". Cada um usa o cabelo do jeito que gosta, que acha mais bonito, mais adequado... São muitas as "desculpas" que a gente dá para usar nosso cabelo natural, normalmente evitando adotar alguma postura ideológica, que remeta à identificação com determinado grupo étnico ou cultural. É evidente também que dificilmente alguém assumirá uma posição meramente pela política, se essa for desagradável em outros aspectos da vida. 

Mas, se a escolha nos faz bem em tantos campos, porque não pensar no bem que ela faz ao mostrar que nossas idéias que vão além da beleza estética? Por que ter medo de dizer que temos orgulho do nosso cabelo porque ele sinaliza que somos mulheres negras, mestiças, afrodescendentes dispostas a ir contra a maré do alisamento que diz que devemos ser adaptadas para sermos aceitas em uma sociedade racista?

Não acho que devemos ter medo de assumir uma posição ideológica, nem quando ela se refere a algo tão "fútil" quanto o jeito que usamos nossos cabelos. Se a política em que acreditamos deve ser vivida, e se viver a política é colocá-la em prática no dia a dia, não há forma mais evidente do que a expressão desta política no nosso corpo. Mais do que  palavras, basta a nossa presença para mostrar quem somos e do que somos capazes.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Estamos julgando?


Quando descobrimos o cabelo natural, é possível que fiquemos, de certa forma, obcecadas pelo assunto. Depois de um tempo já sabemos de cor e salteado todos os ingredientes proibidos e os permitidos, ganhamos uma noção de todos os danos que nosso cabelo sofre a cada respirada que alguém dá do outro lado do mundo e das formas de evitá-los, do perigo dos alisantes, que além de estragarem o cabelo podem causar doenças terríveis e deixar nossas membranas cerebrais pintadas de azul.

E com toda essa informação nas mãos, passa a ser nosso dever alertar nossas irmãs de cabelo crespo do perigo que correm ao continuar com o uso de certos produtos. É verdade que toda essa nossa pregação, por vezes, consegue converter algumas pessoas. A cada vez que fazemos isso, sentimos que a nossa boa ação do dia foi realizada.

É claro que existem diferentes formas de ser uma naturalista, isto é, de usar o cabelo em sua forma natural. Há desde as mais ativistas, que evitam produtos testados em animais, às naturebas, que não usam cosméticos com substâncias sintéticas até aquelas que não ligam pra nada disso e são, na verdade, viciadas em produtos de todos os tipos, cores e fragrâncias. Há também aquelas crespas e encarapinhadas que são “low-profile”: aceitam uma fugida da rotina aqui, uma escova acolá, um megahair ou aplique em uma ocasião especial, ou ainda, bem de vez em quando dão um “susto” na raiz com alguma química.

Pois daí vem a minha pergunta: o quão natural um cabelo nos faz ser uma naturalista? Basta não usar "química"? Ou será que pra ser naturalista há algum requisito especial? Existem meninas que usam tranças com aplique. Outras usam tintura nos fios. Outras não fazem nada disso, mas lançam mão de bobs, twists ou bigudinhos para alterar o aspecto do cabelo e deixá-lo com aparência de cachos mais largos e definidos. Elas, de alguma forma, modificam o cabelo - seja sua cor natural, sua textura natural ou sua aparência natural. Por vezes, olhamos para um cabelo, ainda que crespo, mas modificado e duvidamos que ele seja verdadeiro. “Ela fez alguma química” ou “isso não é o cabelo dela de verdade” são as primeiras frases que pensamos ao ver um cabelo crespo ou encarapinhado “perfeito demais pra ser verdade”, ou, em outras palavras, um que fuja do padrão que temos de cabelo natural.

Será que ao olharmos para uma encarapinhada, como nós, e automaticamente avaliar seus cabelos e nos indagar sobre seus procedimentos de forma depreciativa, só porque ela não segue a mesma filosofia que seguimos não é fazer um juízo de valor sobre essa pessoa sem antes mesmo conhecer seus argumentos para tal? Será que, ao invés de nos unirmos, não estamos julgando nossas irmãs e, por consequência, nos separando mais ainda umas das outras?

Eu comecei a escrever este blog justamente pela necessidade de espalhar o que aprendi e o que descobri para outras meninas, que, como eu, tinham uma relação difícil com seus cabelos. Confesso que fui, sim, movida pela obsessão naturalista de trazer mais fiéis para o grupo das que não tem medo da chuva. E não, este artigo não é o fim do blog, muito menos uma despedida pra dizer que essa vida de naturalista não leva a nada. Muito pelo contrário! Eu continuo defendendo o cabelo natural com todas as minhas forças, e continuo querendo trazer mais adeptos a esse grupo. Mas, como sempre é bom refletir sobre nossas idéias e práticas, talvez esteja na hora de nós, naturalistas, pensarmos se o caminho da radicalidade, do apontar o dedo a alguém que não é “tão natural” quanto nós vale a pena. Talvez estas atitudes muito fundamentalistas afastem de nós aquelas que poderiam um dia se interessar pelo que temos a dizer.

Ao invés de acusar, acolha. Escute o que o outro ou outra tem a dizer – nós podemos não estar falando línguas tão diferentes assim.