domingo, 6 de maio de 2012

Cultivando nossos cabelos


Muitas de nós optam pela transição em busca de um cabelo mais forte e saudável. Quem já tem a raiz grande o suficiente, ou já está completamente natural sabe que os fios relaxados ou alisados, em geral, são bem mais frágeis e finos, partindo-se por qualquer movimento mais brusco que façamos, mesmo com o uso de bons produtos e tratamentos.

Devido a essa fragilidade, é comum que os cabelos com química tenham certa dificuldade para ganhar comprimento. Especialmente para quem tem fios naturalmente muito finos, o tamanho limite é a altura dos ombros. A dificuldade de se obter um cabelo que ultrapasse esse limite é, portanto, compartilhada por grande parte das que optam por alisamentos e relaxamentos.

Por este motivo, pode-se acreditar que os cabelos crespos e encarapinhados não crescem muito, ou possuem um ritmo de crescimento mais lento que outros tipos de cabelo. Além disso, o fato de nosso cabelo em estado natural crescer “para cima”, em formato “black power”, ou ainda a alta taxa de encolhimento das nossas molinhas (que, quando esticadas, dobram ou até triplicam de tamanho) contribuem para reforçar esta impressão. 

Que diferença! Cabelo encolhido (esq.) e esticado
O fato é que, embora certas pesquisas científicas apontem que o cabelo afro pode ter uma taxa de crescimento menor do que a de outros tipos de cabelo, todos os cabelos crescem (a média é de um centímetro ao mês). E mesmo que o nosso tipo de cabelo cresça mais devagar, essa diferença não justificaria o fato de ele parecer estar estacionado no mesmo comprimento para sempre – afinal, de pouquinho em pouquinho era para, um dia, ele sair do lugar e mostrar comprimento!

Pois é possível sim fazer o cabelo encarapinhado atingir tamanhos longos. Como eles são mais delicados, talvez precisem de alguns cuidados e técnicas diferenciados para se obter este resultado. E é sobre esses cuidados que irei falar de forma mais detalhada no blog este mês. Como bem disse a JC em seu blog, às vezes a preocupação com que produtos usar, como estilizar e que ingredientes são nocivos ou benéficos é tão grande que acabamos não prestando atenção ao que estamos, nós, fazendo com nossos fios para que eles não cresçam como deveriam. As experts, donas de cabelos longos,  pela internet (como Kimmaytube, Naptural85, Cipriana e Chicoro, entre outras) possuem diferentes, texturas, usam diferentes produtos, diferentes estilizações e ainda assim conseguem um cabelo comprido. Mas então o que elas tem em comum para obterem o mesmo resultado? A resposta para essa pergunta você descobrirá com a coletânea de dicas deste mês, as quais fui pescando ao longo da minha jornada capilar e que me ajudaram (e continuam me ajudando) a manter meu cabelo encaracolado-encarapinhado extremamente longo e crescendo.

Eu, que tinha o cabelo empacado em determinado comprimento até certo período da minha jornada natural, um belo dia percebi que o meu cabelo crescia como qualquer outro. O que acontecia era que ele não mostrava este crescimento simplesmente porque eu não estava tomando as devidas precauções para que ele não se danificasse e perdesse, nas pontas, os centímetros ganhos na raiz. A partir do momento que eu incorporei à minha rotina as práticas corretas, obtive resultados inéditos, que eu nunca tinha conseguido na época em que usava relaxamento e meu cabelo finalmente mostrou o comprimento que deveria mostrar.

Meu cabelo em 2008
Meu cabelo em 2012
Não existem truques ou milagres para fazer o cabelo crescer. Além da genética que, em última instância, determina certos limites do nosso corpo, o que existe é muita paciência e muita disciplina, porque os resultados só são percebidos a médio e longo prazo.

É por esse motivo que eu chamo este processo de cultivar o cabelo. Não é só "fazer crescer", mas também se dedicar a isso. É como cuidar de uma plantinha: depois de plantarmos a semente, ela não vai brotar de um dia pro outro. É preciso água, adubo (e há quem diga que uma conversa também ajude!). Depois de uns dias ela começa a nascer e, quanto mais o tempo passa, maior e mais bonita ela fica. E é exatamente isso que acontece com o nosso cabelo, se cuidarmos dele da maneira que ele precisa e merece.

Cultivar o cabelo não precisa e nem deve ser um fardo; pelo contrário, cultivar o cabelo pode se transformar num hobby, dependendo de como encaramos o processo. Pode ser o seu passatempo, a sua forma de relaxamento ou um experimento: cultivar o cabelo é divertido e vale a pena.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Olha nós aqui outra vez!

Olá, naturalistas! Como foram de feriado?
Estou aqui pra dizer que eu não sumi... Estive fora por uns dias curtindo esse lugar aqui da foto


Sim, é Paraty! Um local que faz bem pro corpo e pro espírito - e de quebra também para os cabelos!

A cidade, localizada na Costa Verde do estado do Rio de Janeiro, é famosa não só pelos seus atributos naturais, como praias, cachoeiras e área verde preservada, como também pelas construções antigas e cheias de charme.

A maré sobe e invade as ruas do Centro Histórico

A cidade, com suas ruas de pedra, foi considerada Patrimônio Histórico Cultural brasileiro e as construções do Centro Histórico são preservadas em sua aparência original do século XVII/XVIII. Hoje em dia, algumas delas permanecem como residências, enquanto outras deram lugar a pousadas, restaurantes e lojas de artesanato.

Essa casa virou um restaurante que tem uma pizza ótima!

Os restaurantes e bares de Paraty, em sua maioria, fazem questão de terem uma cara bem brasileira, com pratos típicos, MPB e a famosa caipirinha. Talvez por causa disso, o que mais a gente encontra em Paraty são turistas estrangeiros falando os mais diferentes idiomas. Apesar de estar localizada no estado do Rio de Janeiro, toda vez que vou lá me sinto a última carioca do universo...

Mesinhas na calçada para inglês ver

Além das opções culturais, Paraty tem várias praias de cair o queixo, não apenas nas proximidades do centro e do Centro Histórico, mas também em outros locais do município, como a vila de Trindade.

Um cachorro contemplando o mar

Apesar do tempo que não colaborou muito, deu pra aproveitar o feriado curtindo a cidade, já que não tinha possibilidade de cair na tentação das praias com o friiiiio que estava fazendo.

A que vos fala, fingindo que não estava com frio

E depois de desfazer as malas e voltar ao "mundo real", vou voltar a postar aqui no blog.

Fiquem ligad@s: neste mês de maio teremos várias postagens legais pra ajudar você a cultivar um cabelo crespo ou encarapinhado longo, forte e saudável!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Inspire-se!

Não sabe o que fazer com a cabeleira? Está cansado do mesmo visual todo dia? Sua rotina capilar está monótona? Sua criatividade parece ter se esgotado?

Seus problemas acabaram!






Essas e outras imagens inspiradoras você encontra em hi-imcurrentlyobsessed
Aproveite!

domingo, 22 de abril de 2012

Desembaraçando o cabelo seco



Desembaraçar o cabelo não é tortura, nem deve ser transformado em algo sofrido. O bom desembaraçar é a união de técnica correta com instrumento correto e atitude correta.

A recomendação padrão para desembaraçar o cabelo costuma ser: "faça o procedimento com os cabelos molhados e com bastante condicionador". Para as encaracoladas-encarapinhadas (ou kinky-curlies) como eu, este método pode ser o mais eficiente – ou o único possível, no meu caso em particular.

Mas o cabelo muito encarapinhado, aquele que não faz cachos, pode embolar ainda mais quando tentamos desembaraçá-lo molhado. Por isso, as donas de carapinhas respeitosas podem experimentar desembaraçar o cabelo seco.
Apesar de isso ir contra tudo o que se lê e se aprende durante a vida, deixa eu esclarecer: cabelo seco pode ser entendido de várias maneiras. Mas "cabelo seco" não significa, necessariamente, cabelo sem nenhum produto. Ao desembaraçar o cabelo seco, podemos lançar mão de um condicionador e/ou de óleos vegetais. A aplicação de algum produto nos fios, mesmo que secos, ajuda a deslizar o pente ou os dedos e facilita o trabalho, além de auxiliar no tratamento dos fios.
Normalmente, quem opta pelo desembaraçar a seco opta também pelo desembaraçar com os dedos. Isso porque como os fios encarapinhados são superfrágeis, um pente ou escova podem ser por demais agressivos, provocando mais quebra e pontas danificadas.

Óleos podem ajudar
a desembaraçar o cabelo seco

Vamos às regras básicas para um desembaraçar tranquilo:

Tenha paciência
Não desembarace seu cabelo em momentos de estresse ou pressa. Você vai acabar fazendo seus fios de bode expiatório, descontando neles a sua raiva ou nervosismo – e os pobres coitados não tem nada a ver com a história, no fim das contas!

Divida o cabelo em seções
Quanto mais seções, mais fácil será o pentear. Nunca separe suas seções “rasgando” seus cachos: respeite seus fios e divida onde eles querem se dividir (mesmo que as seções fiquem de tamanhos diferentes). Se ele não quiser se separar de jeito nenhum, delicadamente segure a metade de cima da mecha que você quer dividir e, lentamente, desfaça o embolado que ficar com a outra mão, até que as duas partes do cabelo se separem.

Comece pelo fim
Se você começar enfiando o pente logo na raiz, provavelmente não vai conseguir sair do lugar porque os nós vão formar um verdadeiro “bolo”, simplesmente intransponível. Sempre comece a desembaraçar seu cabelo pelas pontas. Quando elas já estiverem desembaraçadas, mova seu pente, escova ou dedos um pouco mais pra cima e desembarace este trecho também. Faça isso sucessivamente, sempre “subindo” pelo comprimento do cabelo até chegar à raiz.

Vá por partes
Você não dividiu seu cabelo em várias seções à toa. Trabalhe com uma seção de cada vez e, quando ela estiver desembaraçada, prenda-a para que os fios não voltem a se embolar (pode ser num coquinho, uma trança frouxa ou twist, tanto faz). Se você estiver desembaraçando e estilizando ao mesmo tempo para um estilo "afro" ou "black power" talvez não vá querer prender a seção para não destruir o resultado. Nesse caso, tente não mexer mais no cabelo que você acabou de desembaraçar e passe para a próxima seção sem perturbá-lo muito.


Ainda não acredita que cabelos encarapinhados podem ser desembaraçados secos? Então olhe este vídeo da Cipriana, uma das Urban Bush Babes, desembaraçando seus longos cabelos (secos) usando apenas os dedos:


Apesar de o vídeo estar em inglês, acredito que dê pra entender, através das imagens, como a Cipriana manipula o cabelo. Ela prefere começar a desembaraçar os cabelos pela raiz porque sempre usa os fios presos - logo, a parte que realmente estará embaraçada será apenas aquela próxima à raiz; como o comprimento, a bem dizer, já está livre de nós, não corre o risco de causar aquele "efeito bololô" de juntar todos os nós em determinado trecho do cabelo. Repare que ela separa mechas bem finas para desembaraçar e separa praticamente fio a fio, sem "rasgar" a mecha de cabelo, trabalhando com muita paciência os nós mais difíceis e sempre saturando os fios com óleos (neste caso, uma mistura de óleo de rícino, jojoba, coco, entre outros).

É importante dizer que a Cipriana usa o cabelo 100% do tempo, preso em estilos protetores. Basicamente, ela faz vários twists no cabelo (todos bem finos porém frouxos) e depois faz um penteado - que não costuma ser nada comedido, como podemos ver no vídeo. Por conta destes cuidados, o cabelo da Cipriana, apesar de superencarapinhado, conseguiu atingir um comprimento incrível. Mas a Cipriana e os penteados protetores merecem, cada um, uma postagem exclusiva, em detalhes...

Por enquanto, se você tem cabelo encarapinhado e não consegue lidar com ele molhado, experimente manipulá-lo seco, desembaraçando os fios antes de lavar e em seguida lavando-os presos em twists largos ou tranças. Talvez o seu processo de estilização fique muito mais fácil a partir disso.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Políticas capilares

Angela Davis, ativista do movimento negro americano


Com certa frequência, vemos nos meios de comunicação alguma notícia envolvendo a combinação discriminação + cabelos. Em dezembro de 2011, vimos o caso da estagiária assediada pela diretora da escola onde trabalhava por conta de seus cabelos crespos e de sua aparência corporal, considerados inadequados para aquela instituição de ensino. Mais recentemente, em março deste ano, uma aluna foi abordada e impedida de entrar em uma universidade no Pará pelo fato de seu cabelo e suas roupas serem “impróprios”. E fora os casos que chegam ao conhecimento do grande público, com frequência sabemos de alguém que precisou modificar os cabelos com o intuito de se encaixar no perfil de entrevistas e seleções de emprego – seja cortando baixinho, no caso dos homens, ou alisando, no caso das mulheres.

A estagiária Ester Cesário

De onde vem essa ideia de que o cabelo crespo ou encarapinhado não é apresentável ou formal o bastante para um ambiente de trabalho ou acadêmico? Parece que, enquanto negros, nossa “boa aparência” só é obtida disfarçando ou escondendo algo que nos identifica como aquilo que somos. Nós, negros, nunca estamos “prontos”: precisamos sempre ser ajeitados, ajustados, para nos inserirmos em determinados meios sociais. Será que somos “naturalmente inadequados”?

É chocante que esse tipo de fato aconteça ainda nos dias de hoje, e em um país como o nosso, onde a população é majoritariamente negra e miscigenada. Nesta suposta democracia racial em que vivemos, nossos cabelos naturais não deveriam ser motivo de estranhamento ou exclusão. Se são, é sinal de que essa democracia não é “tão democrática” assim...

Eu acredito que nossa aparência externa é uma espécie de mensagem visual que sinaliza para os outros algo daquilo que somos. Por mais que neguemos, nossas escolhas estéticas refletem sim, em parte, características da nossa personalidade. O mesmo vale para o nosso cabelo. Eu sei que eu não sou o meu cabelo (ele não me define totalmente, não esgota todas as possibilidades sobre quem eu sou), mas também sei que meu cabelo diz muito sobre mim. 


Por isso, eu considero nossos cabelos como que uma afirmação daquilo a que viemos. Se nossos cabelos naturais são motivo não apenas de olhares de reprovação e comentários de mau gosto, mas chega ao extremo de virar caso de polícia, como vimos nas histórias destas duas moças citadas, então eles não são uma mera questão estética ou de gosto pessoal: nossos cabelos são uma questão altamente política. Optar pelo natural e sustentar essa decisão é, portanto, também escolher entre conformar-se ou afirmar-se.